A Montanha Sagrada (1973)

Se o ideal de procura por um tanto teoricamente inalcançável, mitológico ou poderoso começou na filmografia de Alejandro Jodorowsky já em seu primeiro longa, Fando e Lis, onde um par atravessa a película em procura da mística cidade de Tar, foi em A Montanha Sagrada que ele chegou o seu vértice, depois o batismo de queima imagético e misticamente teórico realizado em El Topo. Este é um concepção que precisamos ter muito evidente quando falamos de um tanto de Jodorowsky, seja no cinema, nos quadrinhos (O Incal é o seu maior exemplo de “procura por um tanto supremo” nas HQs) ou na literatura. A jornada que levou o pistoleiro El Topo à luz místico, à sossego da espírito (e também ao retorno de suas raízes irascíveis e vingativas) é novamente colocada em cena neste filme de 1973, marcado por um intenso desfile de imagens belas, chocantes e inesquecíveis.



A preparação da obra veio em dois momentos para o diretor. Primeiro, com um retiro místico zen. Depois, vivendo comunalmente durante um mês com a equipe de atores principais. Levando em conta que os valores de partilha, convívio, ensinamentos e relação entre rabi e discípulos seriam o cerne da fita, é interessante perceber que tal exposição já vinha sendo erguida pelo diretor na pré-produção. E para descrever a história de um ladrão (Horacio Salinas) com ar de Cristo, que “nasce” dentro de um envolvente cristão para, aos poucos, se ver enojado pela comercialização e depravação dentro da igreja, sendo logo impulsionado para um outro tipo de contato místico, o diretor e roteirista se baseou narrativamente em duas obras: o poema homérico Subida ao Monte Carmelo (São João da Cruz, c. 1581 a 1585) e O Monte Análogo: Romance de Aventuras Alpinas, Não Euclidianas e Simbolicamente Autênticas (René Daumal, 1959).

Não há uma maneira fácil de somar ou explorar as questões simbólicas de um filme porquê A Montanha Sagrada, mas pelo menos o mapeamento de suas raízes é mais fácil do que o de El Topo, uma vez que é indiscutível o cerne intimamente místico da obra — explorado e mostrado de maneira rica e enxurrada de interpretações, é verdade, mas facilmente percebido porquê uma passeio para resgate, que passa pelos seguintes estágios: 1) chamada para a purificação (porquê um Deus, o Alquimista vivido por Jodorowsky é capaz de identificar as almas redimíveis); 2) repúdio de todos os critérios mundanos nos quais a existência do sujeito se baseou; 3) questionamento, repto e entendimento da relação entre ilusão (os sonhos de grandeza dos poderosos) e a veras, constatação com recta a quebra da quarta parede na cena final da fita.

O fotógrafo Rafael Corkidi (parceiro de Jodorowsky em Fando e Lis e El Topo) cria neste filme uma inteligente plataforma de uso de luzes e cores em totalidade simetria com a direção de arte, filmando ambientes que nos contam histórias individuais, coletivas ou que apresentam realidades místicas sem precisar de narração ou diálogos. Da crueza surreal dos primeiros momentos da obra, passando por uma representação genial (e que não deve deleitar instituições de resguardo dos direitos dos animais — problemática ressaltada depois, com uma luta de cães) da Conquista do México feita por sapos vestidos de soldados europeus e lagartos vestidos de indígenas nativos. A representação do massacre em maquete, a procissão urbana e a costura feita com a história da figura do ladrão-Cristo diante de tudo aquilo é uma preparação necessária para engrandecer ainda mais o que vem adiante, quando, em procura de ouro, o personagem de Salinas sobre uma torre muito subida içado por um anzol (um tanto que me deu vertigem só de observar).

Desse momento em diante temos um ponto de transformação. Música, esboço de produção e retrato contam muito mais a história do que o roteiro. Tendo vivido num mundo corrompido e amplamente hostil, o ladrão é atraído para a salvação por um motivo incorrecto. E o Alquimista dá o que ele quer, transformando suas fezes em ouro, tudo isso filmado de maneira inteligente, com diferença de ângulos pensadas com extremo desvelo e sem invencionices formais — por fim, a grandeza e misticismo do cenário já eram marcantes por si só. Com esse ponto de viradela, o roteiro injeta ainda mais mitologia e simbolismos à saga, trazendo sete pessoas (poderosos materialistas, cada um representado por um planeta do Sistema Solar e atuando em um ramo de atividade no planeta) para uma Montanha Sagrada, de onde os deuses governam o mundo.

A Montanha Sagrada é o objetivo-final, cá. Para isso, conhecemos e temos contato com o horror e mortes causados pela História Militar de uma região; pelas contradições e muitos tipos de depravação de valores que existem dentro da igreja e pela totalidade alucinação da população, que assiste maravilhada a tudo ou filma e tira fotografias sem se preocupar com o real impacto dessas coisas para suas vidas e para a sociedade onde vivem. Os homens-ocos, para utilizar uma linguagem poética. Passamos de uma representação do tarô, onde o ladrão é O Louco e seu companheiro, o liliputiano amputado, é o Cinco de Espadas — epístola dos Arcanos Menores — e chegamos a um componente de procura místico extenso, que procura se ver livre de regras. Contudo, na ânsia cega de chegar à uma das muitas montanhas sagradas (os panteões, um concepção Universal presente em diversas religiões), lugar onde estarão livres de controle e de onde poderão controlar todos os outros, os poderosos sequer se dão conta de que mesmo esse objetivo-maior, depois de tantas provações, é exclusivamente uma ilusão.

Eu particularmente vejo o filme cambalear um pouco nas cenas de “escalação” da serra, mas em indemnização, o trajeto é pontuado cá e ali por provações purificadoras visualmente incríveis, uma espécie de “Mestres Pistoleiros do Deserto” que encontramos antes na jornada de El Topo. Aqui, são as últimas fronteiras para a grande revelação que O Alquimista fará para os logo libertos e redimidos poderosos. Para o ladrão (O Louco), o resultado final é a manutenção da ilusão, onde a procura precisa ocorrer em diversos cenários, dando sequência ao papel de guia representado pelo Alquimista (exatamente porquê o rebento de El Topo). Com a prostituta e o chimpanzé, o ladrão segue a sua vida, capaz para habitar a Torre. Já para os poderosos, aqueles que são perigosos demais para continuarem nesse mundo, O Alquimista revela a farsa. Tudo isso que eles viveram era exclusivamente segmento de uma ficção. De um filme. Existe uma outra dimensão. A dimensão da veras. O verdadeiro momento de iluminação onde personagens e espectadores se desconectam da ficção e, estranhando o choque, se veem em suas respectivas realidades. Não é uma peroração fácil ou confortável, mas torna A Montanha Sagrada uma soberba prova sobre porquê colocar em perspectiva as coisas que nos rodeiam, sejam elas materiais ou espirituais; reais ou não.

A Montanha Sagrada (La montaña sagrada) — México, EUA, 1973
Direção: Alejandro Jodorowsky
Roteiro: Alejandro Jodorowsky
Elenco: Alejandro Jodorowsky, Horacio Salinas, Zamira Saunders, Juan Ferrara, Adriana Page, Burt Kleiner, Valerie Jodorowsky, Nicky Nichols, Richard Rutowski, Luis Lomelí, Ana De Sade, Chucho-Chucho, Letícia Robles, Connie De La Mora, David Kapralik
Duração: 114 min.




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