A Quarta Aliança da Sra. Margarida (1920)

Em uma trilha esteticamente mais apurada que a de O Presidente, seu primeiro filme, Carl Theodor Dreyer realizou na Suécia, e não na Dinamarca, a sua segunda produção, tendo aí influência dos maneirismos de estúdio que eram caros às produções dos logo grandes cineastas daquele país, mormente Victor Sjöström e Mauritz Stiller. Neste drama de idade, adequado por Dreyer da obra de Kristofer Janson, conhecemos a história de Sofren (Einar Röd), jovem de origem humilde que deseja assumir o incumbência de pastor e logo poder casar-se com sua prometida Mari (Greta Almroth).



Já nas primeiras cenas, o diretor escolheu nos mostrar simbolicamente segmento do tramontana que aguardava o jovem protagonista: ele está próximo a uma cascata, com sua prometida Mari, falando da futura apresentação teológica que precisaria fazer na igreja lugar, disputando o incumbência de pastor com outros dois jovens muito estudados, vindos da capital. Para um enredo ambientado no século XVII, temos uma grandiosa fidelidade no que concerne aos cenários (a direção de arte criou um perfeito envolvente para as internas, mormente mostrando a igreja e o interno das casas nórdicas daquele século) e nos figurinos, elemento que o diretor sempre procurou simbolizar com precisão.

A escolha da cascata porquê motivo oriundo logo da orifício do filme tem um bom leque de significados. A maleabilidade a chuva versus a imobilidade das rochas; a trajetória progénito da chuva versus a trajetória ascendente da serra; a dualidade de material, estados e caraterísticas dessa formação oriundo já dava as cartas para o que seria a relação entre Sofren e a Sra. Margarida (Hildur Carlberg), viúva do pastor falecido que, segundo os hábitos locais, poderia se matrimoniar com o seu sucessor. Há cá uma mistura de tragédia matrimonial e pessoal envolvidas em uma série de outros impasses que vamos saber no desenvolvimento do filme. Dreyer se permite uma notável categoria de comédia em muitas partes da obra, com destaque para as pegadinhas que Sofren começou a pregar em sua velha e indesejada esposa, a término de que seu frágil coração falhasse e ela… morresse, permitindo-o matrimoniar com seu verdadeiro paixão, a jovem Mari.

Embrulhado na comédia, porém, o diretor insere uma entrelinha que marca uma sofrível repressão e frustração sexual dos jovens, que nunca conseguem se aproximar porque a Sra. Margarida — aparentemente mais possante a cada dia — vive porquê uma ave de rapina, a tudo observando. O subtileza de Sofren ao trazer Mari para a morada pastoral, mentindo que ela era sua mana, não sai porquê o planejado e o personagem é disposto em situações que nos fazem questionar a sua verve cristã, posto que o comportamento em relação à esposa não é dos mais exemplares. Mas não devemos nos enganar em relação aos momentos cômicos. O realismo na representação (histórica e visual) das tradições rurais e religiosas do setentrião da Europa, passadas através das gerações, paira porquê um espargido mas aparentemente inquebrável impedimento para a felicidade. O diretor não necessariamente critica isso — por fim, ele partilhava dessas ideias, desses valores — mas tem os pés no pavimento e sabe perceber quando uma tradição interfere negativamente na vida das pessoas, o que se torna um problema ainda maior quando existe um elemento de fé envolvido.

Na segunda metade da obra encontramos alguns saltos temporais que interferem numa melhor exposição do cotidiano do jovem pastor, dando a sensação de pequenos curtas editados não tão organicamente; mas a esse despeito, o personagem em si é mantido em clara evolução, cada dia mais triste, goro e logo passando para um estágio inesperado. A mesma coisa vai acontecendo com a Sra. Margarida, que passa de uma verosímil feitiçeira a uma senhorinha atencioso a quem o testemunha também aprende a amar. Os experimentos da direção de retrato, quando Sofren oficializou o pedido de tálamo, terminam de dar os seus frutos da maneira mais bela verosímil. Primeiro, um tom macabro toma conta da relação entre varão e mulher; a morada parece assombrada e tudo ao volta parece corroborar a teoria de que a Sra. Margarida vai viver mais 100 anos e lançou um manipanço no pobre Sofren.

A mudança de visão, do horror para o cômico (onde reina sempre a melancolia) e daí para o amoroso (onde reinam o romantismo e a apreço) é feita de maneira aplaudível pelo diretor, deixando-nos em um estágio final onde a vitória e a liberdade estão acompanhadas da tristeza da perda de um paixão recente, independente de qual tipo de paixão estamos falando. A Quarta Aliança da Sra. Margarida é uma história de paixão improvável ou de construção de laços onde dois corpos muito diferentes nunca poderiam se harmonizar. Ou assim se pensava. Como a cascata do início do filme, Sofren e Margarida formam um todo harmonioso, até que a própria natureza percebe que o renovo dos componentes da paisagem deve intercorrer. Trata-se um filme estranhamente realista (e digo “estranhamente” devido aos componentes não-realistas que ele traz) sobre opostos, sazão, necessidades frustradas e estágio. Um legítimo Dreyer.

A Quarta Aliança da Sra. Margarida (Prästänkan) — Suécia, 1920
Direção: Carl Theodor Dreyer
Roteiro: Carl Theodor Dreyer, Kristofer Janson
Elenco: Hildur Carlberg, Einar Röd, Greta Almroth, Olav Aukrust, Emil Helsengreen, Mathilde Nielsen, Lorentz Thyholt, Kurt Welin
Duração: 71 min.




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