Chi-Raq (2015)

Lisístrata é a uma peça de teatro escrita por Aristófanes em 411 a.C. e conta a história da personagem homônima que, cansada da guerra entre Atenas e Esparta, organiza uma greve de sexo junto de outras tantas mulheres que será findada somente em seguida um convénio de sossego entre os exércitos. Elas se trancam em um templo e estão dispostas a manter a mobilização pelo tempo que for necessário, levando à uma guerra de sexos. Chi-Raq é a adaptação moderna dessa peça em uma Chicago do século XXI tomada pela violência, onde o motim liderado por Lysistrata (Teyonah Parris) ocorre em seguida uma menino ser morta por uma projéctil perdida.

Com direção de Spike Lee, já é de se esperar que a obra, primeira produção original da Amazon Studios, possua potente texto crítico social e político, assim da maneira que é recorrente na filmografia do realizador. E logo de início já é provável identificar que esse será mesmo o caminho da projeção. Ainda que não seja inédito essa abordagem sátira de Lee, não deixa de ser surpreendente os dados que traz logo nos primeiros minutos da fita, mostrando que somente as mortes de militares americanos nas guerras do Afeganistão e Iraque somadas giram em torno de 6.700, enquanto Chicago teve, durante mais ou menos o mesmo período, mais de 7.000 mortes. Após essas informações, Chi-Raq parece um título bastante propício.

Apesar do início bastante intenso por conta dessas estatísticas e do rap cantado por Chi-Raq (Nick Cannon), sobrenome de Demetrius Dupree, rapper e namorado de Lysistrata, é justamente nessa segmento que o filme acaba cometendo algumas falhas, um tanto que prejudica tanto a realização quanto a possibilidade de uma melhor avaliação. Um exemplo bastante evidente é quando Chi-Raq e Lysistrata estão transando e Cyclops (Wesley Snipes), líder da gangue rival aos Espartanos de Chi-Raq, ateia incêndio de surpresa na lar em que se encontra o par. Após uma subida repentina de adrenalina na trama, a cena corta e avançamos para o dia seguinte, quando Lysistrata aparece caminhando tranquilamente nas ruas da cidade. Assim da maneira que a falta de simetria no ritmo atrapalha, as poucas aparições tanto de Cyclops quanto de sua gangue é outro fator incômodo na película, chegando ao ponto de quase esquecermos sua existência devido ao tempo que passa fora da tela.



As qualidades da obra, porém, se sobressaem em relação aos equívocos cometidos. Os números musicais, por exemplo, são muito muito executados e se encaixam com primor no percurso da narrativa, fazendo a comédia de Lee flertar com um músico. Da mesma forma, as aparições de Dolmedes (Samuel L. Jackson) da maneira que um narrador alheio aos acontecimentos, mas que contextualiza algumas cenas, além de trazer muito muito uma dinâmica mais própria dos palcos, reforça o caráter hilário da fita, funcionando quase da maneira que um consolação cômico.

A cena mais impactante, no entanto, fica à função do padre Mike (John Cusack) durante o funeral de Patti, a jovem garotinha vítima da projéctil perdida. Além da forma da maneira que Lee filma esse facto, de vários ângulos, passando por todos os presentes e cantos da catedral e trazendo uma grandiosidade para o momento, a versão de Cusack é de ouriçar. Seu exposição varia da consolação aos pais da moçoila à indignação pela situação e impunidade dos culpados, resultando quase num desabafo em quem vivencia aquilo com frequência exagerada. A estupenda performance do ator somada ao domínio completo da cena pelo diretor dá à luz uma exposição de um texto poderosíssimo, pleno de significado ao filme e onusto de críticas, o que nos dá a real dimensão dos fatos e, infelizmente, é facilmente adaptável para o nosso cotidiano.

Interessante também é perceber da maneira que essas críticas de Lee são causadoras de fortes reflexões para os espectadores e fundamentais para construção das personagens em justiça. Ao passo que nos pegamos pensando desde injustiças sociais até o sistema econômico vigente, percebemos que temas da maneira que masculinidade tóxica, um dos vários levantados pelo diretor, afetam diretamente Chi-Raq. Bruto, intransigente, hostil e irritadiço, ele é fruto de uma geração sem figura paterna presente (perde o pai ainda muito pequeno), com uma mãe que faz o que pode para conseguirem sobreviver e em um envolvente de extrema violência. Isso tudo o torna alguém completamente fechado para quem quer que tente ajudá-lo/aconselhá-lo, seja o benévolo padre Mike ou sua querida Lysistrata, causando aprofundamento em conflitos da obra que poderiam ser resolvidos mais facilmente caso não fosse sua inflexibilidade.

Da masculinidade tóxica, vamos para o machismo, que recebe atenção principalmente quando Lysistrata e suas companheiras invadem e trancam-se em um quartel do tropa americano (o templo da peça original). Enquanto as mulheres, cansadas das mortes humanas e da violência causada pelo conflito das gangues, tomam a traço de frente para denunciar o problema, chamando atenção de literalmente todo o mundo, os homens parecem não entender o que está em jogo. Após vários meses de greve sexual, os homens começam a desesperar-se e resolvem negociar. O que não percebem, no entanto, é que as mulheres não querem uma boa transa para olvidar tudo, da maneira que insinuam em praticamente todas as negociações, elas querem a sossego. Mesmo em seguida dizerem claramente o que buscam, eles continuam tirando sarro, dizendo coisas da maneira que “nós temos um tanto no meio das pernas que elas não têm e vamos mostrá-las”. O lado positivo é que Lee sabe o quão ridículo, para expressar o mínimo, tudo isso soa e brinca com a situação, fazendo boa segmento dos homens parecerem seres completamente descolados da veras de forma hilária.

Mesmo que possua defeitos e não seja a melhor geração de Lee, Chi-Raq é uma obra incrivelmente muito adaptada e extremamente engraçada. Trazendo uma história antiquíssima para a era moderna, adaptando a narrativa para as mazelas do século XXI e com um roteiro escrito quase em totalidade em forma de rimas, o filme executa muito muito sua proposta ao mesmo tempo que consegue instigar o testemunha a refletir sobre diversas questões. Uma peça teatral trazida para a sétima arte com a marca registrada de Spike Lee.

Chi-Raq — Estados Unidos, 2015
Direção: Spike Lee
Roteiro: Kevin Willmott, Spike Lee
Elenco: Teyonah Parris, Nick Cannon, Wesley Snipes, Angela Bassett, Samuel L. Jackson, John Cusack, Jennifer Hudson, David Patrick Kelly, D. B. Sweeney, Dave Chapelle
Duração: 127 minutos

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