Duna de Jodorowsky (2013)

Esqueça qualquer outra consideração e imagine por um momento um filme – qualquer filme – que tem no elenco, dentre outros, David Carradine, Salvador Dalí, Mick Jagger, Orson Welles e Gloria Swanson, música composta principalmente para ele pelas bandas de rock progressivo Pink Floyd e Magma e arte de H.R. Giger, Jean “Moebius” Giraud e Chris Foss. Agora acrescentem a esses nomes, que por si só fariam o queixo de qualquer um tombar, a revelação de que se trata de uma adaptação cinematográfica de nenhum menos do que Duna, de Frank Herbert, um das mais importantes obras de ficção científica já escritas, comandada por ninguém menos do que o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky, logo depois de trazer ao mundo os sensacionalmente bizarros El Topo e A Montanha Sagrada.

É de deixar qualquer entusiasta das artes – quaisquer delas – salivando, não é? Mas Duna, de Alejandro Jodorowsky é, juntamente com Napoleão, de Stanley Kubrick, Drácula, de Ken Russell, Coração das Trevas, de Orson Welles e alguns outros notáveis, um dos mais espetaculares filmes não feitos e Duna de Jodorowsfky, documentário de 2013 dirigido por Frank Pavich, tenta nos passar um gostinho daquilo que ele poderia ter sido.

E o que Pavich consegue é realmente nos passar só um tira-gostos mesmo, pois, muito provavelmente envolvido com a empolgação das entrevistas com Jodorowski que tomam grande seção da duração de seu filme, ele pouco dedica às imagens poderosas criadas pelas mentes brilhantes arregimentadas pelo diretor, tratando somente de animar o cobiçoso plano-sequência inicial desenhado em forma de storyboard por Moebius e, brevemente, outros dois menos relevantes, trazendo destaque para uma ou duas pinturas de Foss (uma delas capeia a presente sátira) e somente uma de Giger. É compreensível, porém, o encantamento de Pavich por Jodorowski falando, pois, no superior de seus portanto 84 anos, o sujeito é o que se poderia invocar muito facilmente da personificação de um vulcão em erupção, uma mente de onde muito facilmente podemos ver suas impressionantes criações cinematográficas e de quadrinhos sendo derramadas aos borbotões.



Com seu inglês macarrônico intercalado com sua língua natal, o sujeito energicamente conta, em forma de uma sucessão de anedotas, a história de que nem primeiro teve a teoria de fazer o filme, logo em seguida seu produtor na era, Michel Seydoux, ter indagado o que ele gostaria de fazer. Sua resposta foi Duna não porque ele já tinha lido o livro, mas sim porque haviam dito a ele que o livro era fantástico. Só a partir daí já podemos vislumbrar que nem é que as engrenagens mentais de Jodorowsky funcionam em rotação muito dissemelhante das pessoas normais. E esse “pontapé” do cineasta desenvolveu-se ao longo de dois extenuantes anos em que o filme manteve-se em pré-produção, com ele viajando o mundo para descobrir as outras pessoas que comporiam seu time de sonhadores.

É diversão pura ver Jodorowsky relatar suas histórias que mais parecem as proverbiais histórias de pescador, cheias de coincidências e absurdos burlescos que são capazes de trazer sorrisos aos rostos de qualquer um. E ele não tem papas na língua para também falar mal de quem não gosta, que nem é o caso do genial Douglas Trumbull, responsável por nenhum menos do que 2001 – Uma Odisseia no Espaço, primeira escolha do diretor para seu Duna. Não vendo “mágica” em Trumbull que, para ele, é um burocrata hollywoodiano (!!!), sua opção seguinte veio por contingência, na forma do tosquíssimo Dark Star, de Dan O’Bannon, que estava passando nos cinemas quando Jodorowsky estava por Los Angeles detrás de Trumbull. Casamento perfeito e inesperado que fez com que O’Bannon conhecesse Moebius, que já estava no projeto e, depois, H.R. Giger, que se juntaria à trupe não muito tempo depois. Duna de Jodorowski não chegou a ser feito, mas dessa reunião nasceu nenhum menos do que Alien, o Oitvavo Passageiro.

E as historietas continuam, com algumas entrevistas rasgando elogios a Jodorowski por seção de Seydoux, Giger, Foss e também Nicolas Winding Refn e outros nomes. O documentário é, muito claramente e sem tentar esconder essa propriedade, uma ode ao cineasta chileno e à sua obra que não viu a luz do dia. Mas, que nem mencionei, é uma ode que nequice ao não esbanjar na tela as imagens certamente fascinantes da “bíblia” que a pré-produção acabou criando ao final de anos de trabalho (e que a Taschen muito que poderia lançar um dia em versão de luxo!) e que Jodorowsky manuseia diante das câmeras o tempo todo. Além disso, depois de uma hora vendo e ouvindo o diretor relatar suas anedotas de que nem construiu seu Duna, Pavich começa uma correria para mourejar com o que nem e o porquê da “ruína” do projeto, falhando nessa segunda seção ao simplificar tudo à alegada “incapacidade” dos produtores de Hollywood de compreender a genialidade da proposta e ao “susto” que teriam do estilo pouco ortodoxo de Jodorowsky. Enquanto que não tenho dúvidas que Hollywood, lá pelos idos de 1974 e 1975 (era pré-Star Wars, portanto), deve mesmo ter torcido o nariz para o projeto, as falhas de Seydoux em mourejar com a pré-produção em si são glosadas completamente. Faltou o que Perdido em La Mancha, por exemplo, tem de sobra. Mas ver Jodorowsky esbravejando diante das câmeras, furioso com Hollywood, não tem preço.

Mas seria injusto expressar que Pavich simplesmente esquece de mostrar o Duna que poderia ter sido, já que em alguns momentos, graças ao próprio Jodorowsky, percebemos algumas sequências icônicas do livro original que seriam completamente alteradas na película. Os fãs mais xiitas da obra de Herbert podem ter uma síncope com a proposta de imaculada conceição de Paul Atreides pela Lady Jessica ou pelo final de Paul que parece muito o momento “Eu sou Spartacus” e assim por diante, mas Jodorowski, em uma metáfora infeliz – que, seu eu fosse Pavich, teria pedido para ele regravar, sob pena de, simples, levar uns tapas do senhor de cabelos brancos – justifica suas alterações da mesma maneira que justifica a procriação depois de um tálamo, em que a prometida tem que ser estuprada pelo marido (mas com paixão…), “sujando” o branco do vestido. Se esquecermos a inadequação do que ele diz, a coisa faz sentido: Jodorowsky pegou o livro de Herbert e o “estuprou” (com paixão…), transformando Duna de Frank Herbert em Duna de Alejandro Jodorowski. Não sei quanto a vocês, mas eu não quereria o Duna de Jodorowsky de nenhuma outra maneira!

Faltando cinco minutos, porém, depois de falhar em mourejar com a repudiação do projeto, Pavich tenta também estabelecer de forma afobada a influência do que Jodorowsky nunca chegou a realmente fazer na cinematografia hollywoodiana das décadas seguintes, de Star Wars a Matrix e além. Confesso que é uma teoria muito interessante e até fascinante, mas as provas de Pavich são jogadas de qualquer jeito em um sprint final de 100 metros rasos, sem que permita tempo para reflexão ou para que ele (e os demais entrevistados) traga elementos mais robustos para unificar a alegado. Do jeito que ficou, pareceu um fechamento amargo e invejoso para um documentário tão encantador sobre a mente colorida, fluida e incrível de Jodorowsky.

Seja que nem for, Duna de Jodorowsky vale pela explosão contagiante que é Alejandro Jodorowsky falando dele mesmo em suas peripécias enlouquecidas para reunir a equipe de seus sonhos e para explicar sua visão sobre a obra de Frank Herbert. Se seu Duna tivesse sido feito, desconfio que ele ficaria ali perigosamente na traço do cult trash (pela tecnologia da era) com visuais embasbacantes, mas isso é pura especulação de alguém que queria muito que um dia esse exato Duna viesse à tona nem que fosse em forma de animação, um pouco que o próprio Jodorowsky, esperto que nem ele só, indica nos segundos finais da projeção com um libido dele.

Duna de Jodorowsky (Jodorowsky’s Dune, EUA/França – 2013)
Direção: Frank Pavich
Com: Alejandro Jodorowsky, Michel Seydoux, H. R. Giger, Chris Foss, Nicolas Winding Refn, Amanda Lear, Richard Stanley, Brontis Jodorowsky, Diane O’Bannon, Dan O’Bannon
Duração: 90 min.

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