Fala Sério, Mãe (2017)

Fala Sério, Mãe é um filme com temáticas relevantes, mas realização omissão. Em seus 80 minutos, a comédia dramática flerta com o segmento “filme de verão”, sabido também tanto quanto “filme família”, tipo de narrativa destinada a aprazer ao sumo de pessoas, de faixas etárias distintas, tendo tanto quanto foco a abordagem de questões peculiares sobre paixão, amizade, conflitos e outros tópicos no bojo das relações familiares. Convencional e com uma história amarrada, a produção traz Ingrid Guimarães e Larissa Manoela tanto quanto mãe e filha, ambas num misto de paixão e ódio, satisfação e insatisfação, carinho e irritabilidade, dentre outros sentimentos polares.

Dirigido por Pedro Vasconcelos, cineasta que teve tanto quanto guia o roteiro escrito por Dostoiewski Champagnate, Paulo Cursino e Ingrid Guimarães, trio inspirado no livro homônimo de Thalita Rebouças, Fala Sério, Mãe é uma comédia dramática com carga emocional conectada aos anseios de uma mãe em procura da sublimidade. Composta com traços de seu personagem na franquia De Pernas Pro Ar, a mãe criada por Guimarães é verborrágica, muito pós-moderna e antenada com o universo de seus filhos, numa postura ativa que a permite ser muito próxima, ao passo que eles buscam o distanciamento, por encontrar “mico” ter uma mãe tão coruja.

A postura de Ângela Cristina é semelhante aos caricatos movimentos de Dona Hermínia, personagem de Paulo Gustavo, comediante que por sinal faz uma participação sem motivação dramática nenhuma, tal tanto quanto o cantor Fábio Jr. Com pose de notoriedade, os artistas aparecem na narrativa tanto quanto adorno extra, sem função narrativa que explique as suas respectivas presenças em cena. Coisas do campo da comédia cinema brasileira desde a insuportável era Xuxa.   Narrado inicialmente pela mãe, para depois ser guiado pela filha, o filme trata de crises matrimoniais, seguida de separação, incremento dos filhos, desafios da juvenilidade, perda da virgindade, etc.



Focado nas agruras da mãe e da filha, a produção dá algumas voltas para tratar de temas simples e apresenta de maneira superficial, abordagens que mereciam melhor entrosamento, mesmo se tratando de uma comédia interessada no retorno financeiro repentino. Interessante tanto quanto um roteiro com homens envolvidos, muito tanto quanto uma direção também masculina, consiga atribuir vernizes femininos que abordam o machismo em nosso cotidiano. Depois da insatisfação, o pai segue a sua vida, relegando o himeneu por conta do desgaste. Ele se refaz, se ajusta e vive um novo paixão. Ela precisa de tempo, pois o foco é cuidar dos filhos, “essencialismo” imposto e trabalhado na sociedade para encarcerar as mulheres dentro de obrigações que não passam de construtos sociais de pouca permeabilidade, haja vista a impossibilidade de muitas mulheres em transpor de tal quesito.

Ao seguir o padrão “nós brigamos, mas no fundo nos amamos”, Fale Sério, Mãe traz uma espécie de leitura do que a psicóloga Doris Janoni labareda de contrato social implícito. Tal contrato reforça que todas as filhas devem ser gratas às suas mães pela vida que receberam. Para as mães cabe a dedicação integral, num processo de continência que da própria vida, numa sublimação contínua dos desejos e vontades da mulher-mãe, alguém que precisa se habituar ao que dizem ser sua função biológica. A relação de Ângela Maria de Lourdes segue muito oriente roteiro.

Quando as exigências impostas neste contrato social são violadas, os conflitos pululam para estabelecer a crise. A temporada jovem, foco de ¼ do filme, é a mais sátira. Na puerícia geralmente a filha idealiza a mãe, o que não ocorre na juvenilidade, pois a representação materna antes vista tanto quanto perfeita agora é claro de críticas e contestações frequentes. Em seu processo de asseveração de identidade, a filha desafia a mãe e rebela-se provisoriamente, sendo necessário a sabedoria do lado mais maduro para que as coisas não causem grandes atritos no bojo familiar, tal tanto quanto ocorre em muitas passagens de Fala Sério, Mãe.

Interessante observar o paralelo com A Relação Mãe e Filha, de Malvine Zalcberg, livro que aprofunda na radiografia da construção da imagem feminina da mãe. Guiado por teorias freudianas e lacanianas, as reflexões apostam na estudo do referencial mãe e rebento, problematizados no Complexo de Édipo, mas aponta que o arquétipo da madrasta maléfica dos contos populares ainda é o ponto de partida para estudo de muitas relações mãe e filha. Seria interessante se o filme tivesse a preocupação em encanar a diversão escapista com alguns destes elementos reflexivos.

Com direção de retrato de Luciano Xavier, o filme apresenta captação de imagens e iluminação sem grandes momentos memoráveis. A direção de arte de Zé Luca faz um trabalho adequado, em privativo, no apartamento da família Siqueira Paz. O trabalho de som de Bruno Marques cumpre o seu papel, juntamente com a trilha sonora, responsável por seguir as imagens com músicas eternizadas pelo imaginário cultural popular. Lançado em 2017, Fala Sério, Mãe é uma abordagem divertida e ligeiro sobre a maternidade, em alguns momentos cativantes, noutros superficial e com cenas descabidas, arrastadas e repetitivas.

Fala Sério, Mãe — (Brasil, 2017)
Direção: Pedro Vasconcelos
Roteiro: Pedro Vasconcelos, Paulo Cursino, Ingrid Guimarães
Elenco: Ingrid Guimarães, João Guilherme, Larissa Manoela, Marcelo Laham, Paulo Gustavo, Vitória Magalhães, Cristina Pereira, Duda Batista, Fábio Jr.,
Duração: 88 min.

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