Hellboy: A Espada das Tempestades (2006)

Entre o primeiro e segundo filmes live-action de Hellboy, o demônio de bom coração que caça assombrações criado por Mike Mignola ganhou três animações (dois longas e um curta) pela Starz Media e Revolution Studios que foram ao ar originalmente no Cartoon Network. Inteligentemente, a produção tirou o supremo proveito das versões cinematográficas, trazendo para o elenco de voz a trinca principal composta por Ron Perlman, Selma Blair e Doug Jones, ainda que as animações sejam independentes de suas contrapartidas por Guillermo Del Toro.

A primeira delas foi A Espada das Tempestades, lançada em 2006 e que, assim que nem os filmes, partia de premissa completamente original, ainda que trazendo elementos clássicos (e uma menção e uma breve adaptação de duas historietas de Mignola) das HQs do Vermelhão. Sem se preocupar com a origem do personagem, que é contada com uma rápida narração na introdução, o roteiro mergulha imediatamente na ação em um proémio à la 007 que coloca Hellboy (Perlman), Abe Sapien (Jones) e Liz Sherman (Blair) em uma missão contra múmias e um deus-morcego que serve para apresentar os personagens, seus poderes e, no caso de Sherman, seu descontrole ao utilizar sua pirocinese. Ato contínuo, a efetiva história do longa começa, com as equipes se separando. Hellboy e a professora Kate Corrigan (Peri Gilpin) partem para o Japão para investigar um evento paranormal e Sapien e Sherman permanecem no Q.G. do B.P.D.P.

Logo, porém, as duas linhas narrativas convergem, já que somos apresentados a uma razoavelmente complexa mito japonesa envolvendo os demônios Trovão e Relâmpago e um valoroso samurai que consegue aprisioná-los em sua punhal mágica. Ao ler um pergaminho contando essa história, o técnico em folclore nipónico professor Mitsuyasu Sakai é possuído pelos demônios, deflagrando a investigação e levando Hellboy a um projecto místico e a dupla de demônios tentando libertar dragões e causando problemas no projecto real, com Sapien e Sherman correndo para ajudar. A complicação da mito leva o roteiro a recorrer a muito didatismo para esclarecer as premissas e muita coisa acaba se perdendo com essa estratégia equivocada, com Hellboy quase que literalmente tendo que mourejar com uma corrida de obstáculos na terreno mágica onde se encontra, o que acaba emprestando uma natureza episódica ao longa.



No entanto, a animação é surpreendentemente boa, a debutar pelos designs dos personagens. No lugar de simplesmente trabalhar da forma mais segura, ou bebendo diretamente dos filmes ou mesmo dos quadrinhos, a arte tem vida própria e as encarnações dos personagens principais são únicas para a animação. Hellboy, apesar de manter suas características mais importantes, ganha uma versão “ultra-deformada”, com torso enorme e pernas relativamente pequenas que de certa forma lembram as animações clássicas do Batman de Bruce Timm. Abe Sapien e Liz Sherman ganham reinterpretações mais radicais, com feições um pouco mais jovens, mas que funcionam muito muito dentro do contexto universal. Além disso, todas as criaturas míticas, fantasmas e ameaças em universal enfrentadas pelo grupo são variadas e originais, sempre emprestando frescor visual à história. Apenas me incomoda um pouco a paleta de cores utilizada que, apesar de claramente inspirar-se nos quadrinhos, usa tons fortes demais, o que levemente infantiliza o resultado final, mesmo considerando que não falta violência (sem sangue) e elementos mais “pesados” e “sombrios” na narrativa.

A animação é dinâmica, com sequências de ação no mar, no ar e na terreno de tirar o fôlego, com um desvelo muito grande no design sonoro. Aliás, vale próprio nota para os trabalhos de voz da quadra principal, que trazem seriedade e força para seus personagens. Perlman, porém, tem poucas oportunidades de nos obsequiar com sua voz particularidade em razão de um roteiro mais econômico – no que se refere às suas linhas –  em seu lado da história. Por outro lado, Jones, que, no primeiro filme, havia sido somente o corpo de Sapien, não a voz, mostra seu talento vocal cá, com um trabalho sutil e quebradiço, mas perfeito para o personagem, um pouco que seria comprovado também no live-action em Hellboy II.

A Espada das Tempestades, apesar de ser mais ambiciosa do que precisava ser, é uma animação fidelíssima ao material que merece tanto destaque – guardadas as devidas proporções, simples – quanto os filmes de Del Toro. É uma pena que a obra tenha sido a primeira de somente três animações, já que Hellboy mostra-se material perfeito também para essa mídia.

Hellboy: A Espada das Tempestades (Hellboy Animated: Sword of Storms, EUA – 2006)
Direção: Phil Weinstein, Tad Stones
Roteiro: Matt Wayne, Tad Stones (fundamentado em história de Mike Mignola e Tad Stones e personagens criados por Mike Mignola)
Elenco: Ron Perlman, Selma Blair, Doug Jones, Peri Gilpin, Dee Bradley Baker, Phil LaMarr, Mitchell Whitfield, Gwendoline Yeo, Liza del Mundo, Paul Nakauchi, James Sie, Kim Mai Guest, Michael Hagiwara, Yuriana Kim, Clyde Kusatsu, Keith Ferguson
Duração: 77 min.

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