Máquinas Mortais (2018)

Máquina Mortais surgiu no sonar cinematográfico carregando o nome de Peter Jackson em seus materiais promocionais. Mas Christian Rivers, profissional em efeitos visuais que foi parceiro de Jackson em projetos do mesmíssimo ser que eternizou Senhor dos Anéis nos cinemas, é o verdadeiro comandante desse navio. Quer proferir, porquê chamamos essas cidades motorizadas? O universo é pós-apocalíptico, milhares de anos no porvir ao nosso, e Londres quer aparentemente invadir o mundo, consumindo assentamentos menores. Como se isso importasse, porque o escopo maior dessa geração mitológica, também acerca de grupos “Anti-Tração”, é subjugado por uma narrativa que embasa-se sobre os dramas pessoais dos seus tantos personagens. O orgasmo e o macguffin, que conversa exclusivamente com essa pontuação mais coletiva, são desimportantes a nós.

O que Rivers encaminha narrativamente, em contrapartida, é exclusivamente sentimentalismo mal-escrito mesmo. Por exemplo, a protagonista Hester Shaw (Hera Hilmar) quer vingança contra o criminoso de sua mãe, justamente um dos homens mais importantes de Londres, Thaddeus Valentine (Hugo Weaving). A premissa é até interessante, pois está amarrada com a presença de um outro personagem, relevantíssimo para a geração de Shaw quando a pequena era uma mera petiz. Contudo, ao invés de edificar emocionalmente esse segundo relacionamento, importante a uma das resoluções que acontecem na metade do longa-metragem, Christian Rivers opta por explorar essa veia crucial a base de péssimos flashbacks e um manipulativo segmento pleno de lembranças passadas, muito indecente com o que realmente criou-se no enredo. Noção de drama não existe.

E demais conexões entre o pretérito de Valentine e Shaw também são apressadas, encaixotadas entre uma sequência de ação e outra. Ao mesmo tempo, os anseios da personagem não estão amarrados com a encruzilhada rebelde, opositor às vontades londrinas, e nunca estarão por que, antes de qualquer outra coisa, o que Shaw quer? Esse é um vilão tão raso que parece ofensivo mostrar que Weaving surpreendentemente conseguiu extrair, da visão do roteiro, um personagem com carisma. O choque entre a versão amistosa de Valentine para a sua versão maligna, mais zero, é uma razão para a presença de Thaddeus consolidar-se. Custava Máquinas Mortais estabelecer um maniqueísmo com intenção de ser maniqueísta – um clássico pautado nos embates do muito contra o mal? Muito superior a má realização dessa “profundidade” dramatúrgica.



Ainda mais por conta de que inúmeros valores desse universo suposto moram na exposição de temáticas maiores aos arcos pessoais e insignificantes dos personagens. No pretérito, a Guerra dos Sessenta Minutos, em que a tecnologia destruiu o mundo, fora uma consequência da estupidez humana. Por que resgatar a mesma tecnologia responsável pela morte de bilhões de pessoas? Mas um material original existe e deve ser respeitado, ou seja, resposta negativa para esse questionamento. Do contrário, o roteiro, que possui até a assinatura de Peter Jackson, precisa se sustentar em questões que cansam o testemunha pelo valor expositivo e melodramático com que se apresentam em cena. Originam-se duas horas extensas com vários momentos climáticos, porém, bastante estafantes por não possuírem congruência nem para o caos instaurar-se.

É o caso do coadjuvante com aura de protagonista Tom (Robert Sheehan), uma espécie de Newt Scamander com Luke Skywalker, antes de Mark Hammil aprender a atuar. O que não significa que o artista é ruim, exclusivamente que o seu personagem é o montão do entediante. O garoto é ainda historiador, coisa que a obra consegue explorar pontualmente para fornecer trouxa à mitologia, mas, para piorar, responsável por, em razão de sua existência, margear uma péssima cena com referência a Meu Malvado Favorito. Como Máquinas Mortais quer dar substância ao personagem? Tornando-o piloto, um sonho esquecido por Tom posteriormente perder os seus pais. Esse deve ser um dos pretextos mais boçais para orfandade no cinema, e o mais engraçado é que o texto repete tanto esse ponto que já conseguira naturalizar o voo quando o jovem pega no volante pela primeira vez.

Se Guerra nas Estrelas, Senhor dos Anéis e Harry Potter são exemplos de narrativas em que a jornada do herói está dramaticamente mesclada com a premissa maior, Máquinas Mortais é o caso ideal para uma trajetória de acasos ordinários que urge alguma coesão inexistente, porém, se interessa, na verdade, unicamente pelo relacionamento amoroso entre os personagens centrais. “Você o governanta?” é a pergunta mais estúpida feita em toda a projeção e que piora a isenção de charme do co-protagonista. E são muitos personagens à toa. O camarada do camarada da protagonista. O camarada da amiga da protagonista. A filha do opositor da protagonista. A única coadjuvante verdadeiramente interessante é aquela interpretada por Jihae, conectada com a premissa-mor e baseada em conceitos que tornam-a uma personalidade pela qual minimamente nos importamos.

E nos momentos em que mapeia as grandes construções apresentadas, Rivers sempre mantém um espaçamento considerável entre onde se encontra a câmera, consequentemente o testemunha, e o coração dos cenários. Embora os contornos sejam compostos por monumentos e automóveis grandiosos, certamente muito confeccionados, esses são também os casos que separam um competente profissional no ramo da computação gráfica de um cineasta com personalidade e capacidade para edificar universo. Do ventilado esboço de produção, com vários figurinos, penteados e ambientes, nasce um raso universo. Nem mesmo as cenas de ação compensam, por estarem acompanhadas de personagens pouco engajantes. Muito do que Máquinas Mortais apresenta, em suma, parece ser uma máscara para o péssimo roteiro cinematográfico do princípio.

Máquinas Mortais (Mortal Engines) – Nova Zelândia/EUA, 2018
Direção: Christian Rivers
Roteiro: Peter Jackson, Philippa Boyens, Fran Walsh, Philip Reeve
Elenco: Hera Hilmar, Robert Sheehan, Hugo Weaving, Jihae, Ronan Raftery, Leila George, Patrick Malahide, Stephen Lang, Colin Salmon, Mark Mitchinson, Regé-Jean Page, Menik Gooneratne, Frankie Adams, Leifur Sigurdarson
Duração: 128 min.

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