Mister Roberts (1955)

A guerra está terminando, e o Mr. Roberts (Henry Fonda) não lutou nela uma vez que gostaria de ter lutado, objetivamente ao invés de indiretamente. Para o patriota, eis um vício não ter pego nas armas e defendido o seu país, uma vez que fez os seus outros irmãos, alguns mortos e alguns ainda vivos. Com o que o navio cargueiro Reluctant pode contribuir para os Aliados na Segunda Guerra Mundial, enquanto estacionado no Pacífico? O protagonista-homônimo a esse longa-metragem de John Ford, portanto, requer sempre ao “Capitão” Morton, vivido por James Cagney, transferência, sempre negada. O antagonismo, portanto, não é o Eixo, mas anseios restringidos. É o sonho do personagem, poder até mesmo morrer, mas morrer em vista de uma bandeira. Essa jornada quer, supra de tudo, engrandecer o seu protagonista, menor, ao posto dos notáveis heróis.

E Mister Roberts é um magnífico réplica na sugestão ao heroísmo – próprio de sua estação – existente no ser, mesmo sendo mais congruente dentro da visão da tripulação ao protagonista e não vice-versa. Henry Fonda encarna um varão que diz o que pensa, luta pelo que acredita ser patente e é capaz até mesmo de sacrificar-se perante a isso. Suas vontades podem não ser saciadas, mas quem disse que as dos outros também terão que ser privadas? Enquanto é encarcerado nesse balde marítimo pelo Capitão, um vilão com traços cômicos, porém, irritante e desprezível, Doug Roberts sempre procura trazer o melhor para os seus, apesar de riscos comprometerem o seu porvir. Esse Mr. Roberts não será um herói para a América. Em contrapartida, o protagonista, vivido com charme por Fonda, será um herói para os sessenta e dois membros segmento da tripulação.

Uma permissão a privilégios até que vulgares para esse grupo, espiando as enfermeiras de um hospital, caso comparada com o que o protagonista abdicou ou abdicará por isso, porém, nunca soa estar em pé de paridade. Faz segmento de uma estrutura narrativa, por um lado, competente. Fonda nos permite crer na urgência desse homens em terem a companhia de mulheres. No entanto, os relacionamentos tornam-se impessoais, com exceção de um único personagem, mais próximo a Doug. Crer num vínculo que mostre o quanto Roberts, agora em diante, é orgulhoso desses seus “iguais” torna-se um pouco impossível, portanto. Já num quesito mais subversivo, acerca das gozações transviadas, o longa-metragem funciona muito melhor e é mais congruente. O Capitão, que é antagônico a todos os membros da tripulação, une-os sob um só ponto em geral.



A guerra está terminando, mas esse navio possui pouca noção do que fora as mortes causadas. Um ingênuo humor era provável, e esse certeiro viés cômico tem Jack Lemmon, vivendo Frank Pulver, uma vez que auge. O curioso é que Ford, mantendo rixas com o seu elenco, participou de poucas filmagens. Muitas cenas foram gravadas por outros diretores, optando por emular o prestigiado cineasta. Mas o elenco mostrou-se coeso e a direção, em várias passagens, consegue se emancipar dos problemas. Uma cena remete às comédias do cinema mudo. Já o vértice do tom dramático surge na última, uma mudança de perspectiva, já beirando o pós-guerra. A câmera se aproxima ao rosto de Pulver com desvelo, encontrando na tristeza a vontade por abraçar um grande legado. Essa é uma obra sobre pequenos heróis que não sobreviveram e não se importaram em sobreviver, entrecortando muitos risos com os necessários combates às ignorâncias, quer seja o nazismo, os japoneses ou a inocência.

Mister Roberts – EUA, 1955
Direção: John Ford, Mervyn LeRoy, Joshua Logan
Roteiro: Frank S. Nugent, Joshua Logan, Thomas Heggen
Elenco: Henry Fonda, James Cagney, William Powell, Jack Lemmon, Betsy Palmer, Ward Bond, Philip Carey, Nick Adams, Perry Lopez, Ken Curtis, Robert Roark, Harry Carey Jr.
Duração: 123 min.

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