No Silêncio da Noite (1950)

Como crer na morte quando o paixão surge abruptamente, contrário às normas sociais, em que o tarar é mais generalidade que o amar? Qualquer detetive culparia o parelha protagonista de No Silêncio da Noite pela morte de uma simples moça, puramente por terem se uno convenientemente por conta do homicídio dessa jovem. Entre um roteirista de cinema, em processo de retomada do seu auge, e uma atriz em início de curso, é construída uma paixão, mas em meio a um trágico transgressão, extremamente macabro. Morre alguém e nasce o paixão. Qualquer diretor não resistiria em tratar com amargura o que aconteceu com Mildred Atkinson (Martha Stewart) posteriormente o seu encontro com Dix Steele (Humphrey Bogart), porém, esse opta por perceber a insolência do paixão, provável nascer nos momentos mais inoportunos pensáveis e esvanecer nos mais oportunos para existirem.



O cínico romance, em contrapartida ao transgressão que aconteceu no silêncio de uma noite qualquer, é o enfoque proposto na obra, um clássico comandado por Nicholas Ray. Nesse longa-metragem, sua prioridade é estudar, entristecidamente, esse outro drama – o romance inconveniente -, permeado por visceralidade e verdade e efemeridade. Isso desponta de uma abordagem subversiva ao gênero, pois, em No Silêncio da Noite, o noir não secção dessa tragédia presumida – encarada com frieza pelo protagonista -, mas de uma classe investigativa mais pessoal e intimista, ousada e tão desoladora quanto. O que importa é o relacionamento entre Dix e Laurel Gray (Gloria Grahame), sua construção e desconstrução. O transgressão tenebroso presente na premissa é rebaixado em prol de um desenvolvimento muito mais cruel que qualquer homicídio passional. É o homicídio do paixão.

Enquanto a investigação policial é sub-texto, narrativamente importante para guiar os passos dos personagens, a investigação amorosa é a verdadeira superfície cinematográfica para essa obra. Quem vai detrás das respostas, se é que existam respostas, não é um detetive ordinário, porém, a própria Laurel, desconfiada de que seu amante é realmente quem assassinou aquela jovem simples. E por que não seria? Nicholas Ray, portanto, conduz dois processos. Um é sobre Humphrey Bogart, mostrando aos poucos diversas facetas ao personagem que o ator interpreta, em um dos grandes papéis de sua curso. O comportamento do roteirista é ácido demais para ele não ser culpado, porquê revela a passagem do estrangulamento. Assim, a personagem de Gloria é estremecida por estas transgressões morais, cada vez mais amedrontada, ao invés de apaixonada.

Com isso, o conjunto torna-se um retrato devastador sobre a impossibilidade de amar, ao passo que, anteriormente, havia sido sobre a possibilidade de amar. As duas suposições caminham lado a lado, no auge do romance e no auge da tragédia. Com uma escrita impressionante, e uma direção tão cuidadosa e impactante, um só equívoco na estrutura que influencia uma totalidade organicidade para o terceiro ato: a costura entre as investigações policiais e as amarras românticas. Um outro ponto um pouco redundante é o pesadelo de Laurel, que torna óbvia uma visão da obra já consolidada. No resto do longa-metragem, sobra a ironia do timing desencontrado, do comportamento animalesco sendo aos poucos revelado, antes ignoto. Será que matou-a mesmo? Eis a maior catástrofe, muito mais arrebatadora do que a morte do ser: é a morte do paixão.

No Silêncio da Noite (In a Lonely Night) – EUA, 1950
Direção: Nicholas Ray
Roteiro: Dorothy B. Hughes, Andrew Solt
Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid, Art Smith, Jeff Donnell, Martha Stewart, Robert Warwick
Duração: 94 min.




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