O Sorriso de Monalisa (2003)

Durante uma conversa com um professor da espaço de Letras, fui criticado por trabalhar com O Sorriso de Monalisa, pois segundo o profissional, a narrativa é carregada de clichês. Foi preciso poucos minutos para explanar as minhas considerações. O filme é uma obra carregada de simbolismo, didatismo puro. Expliquei ser uma narrativa sobre o conservadorismo na arte e na vida, situada nos anos 1950, mas que faz rodear temas pertinentes para se pensar a posição da mulher na sociedade, muito do jeito que o ensino de artes e literatura. Apontei, inclusive, que o meu colega parecia um dos personagens da narrativa, tamanha a sua postura do jeito que mediador do conhecimento na sala de lição, ou seja, dotado de táticas que não dialogam com a verdade do educador e dos estudantes contemporâneos, o que tornava as suas aulas verdadeiras falácias intelectuais.

Mas, enfim, do que se trata o filme? Iremos excursionar pela obra, para no desfecho, voltarmos ao diálogo com o professor “dito” tradicional. Em O Sorriso de Monalisa, somos apresentados aos primeiros passos de Katherine Watson (Júlia Roberts) do jeito que professora numa renomada e extremamente conservadora escola de artes. Mesmo sabendo da ideologia tradicionalista da Wellesley College, Katherine decide investir no processo seletivo e posteriormente algumas tensões na reunião de estudo curricular, é aceita. O duelo, logo adiante, não era mais ultrapassar os limites do campo de força pleno de ego dos superiores hierárquicos da instituição, mas mourejar com as suas alunas, seres humanos que nas palavras de uma das novas colegas de Katherine, “farejam o pavor de longe”.

Inicialmente maravilhada por estar diante da realização de um sonho, logo Katherine perceberá que os desafios serão maiores do que imaginava. Uma professora enfermeira é expulsa da escola por dar conselhos e indicar métodos contraceptivos para uma estudante, as aulas de retórica, elocução e postura (cruzar e descruzar as pernas) lhe causam desconforto, haja vista que Katherine possui uma postura libertadora, pensa nas mulheres na seara da emancipação, longe do retrocesso de aulas e práticas deste tipo.



A produção deflagra os desafios do professor em início de curso. Está situada nos anos 1950, mas torna-se totalmente relevante para pensar que nos dias atuais, ainda falta formação que ligeiro em conta as inexperiências, as expectativas e as dificuldades desta tempo inicial. Conforme apontam os estudos na espaço, é um momento de descobertas em que o docente se sente entusiasmado, comprometido e satisfeito. Logo depois, surge a “tempo da sobrevivência”, termo utilizado por Huberman, em seu cláusula O ciclo da vida profissional dos professores. Mais adiante, o chamado “choque do real” torna-se evidente, pois o docente se frustra ao desenredar, na maioria dos casos, a intervalo continental entre os seus ideais educacionais e o cotidiano escolar. Atire à primeira pedra aquele profissional nunca passou horas preparando uma lição magistral, enxurrada de detalhes e curiosidades marcantes, mas fora recebido com a frieza de um iceberg pelos estudantes. Alguém?

Assim do jeito que a professora do filme Mentes Perigosas, Katherine Watson sente-se tentada a desafiar todo o currículo. As apostilas prontas não deixam espaço para inovação. Sendo assim, a profissional precisará ir pelas beiradas, minando algumas ideias pré-concebidas, sem desperdiça-las, mas relacionando-as com outras formas de ver a arte. Em perceptível momento, ao expor a sua segunda lição, coloca uma obra de arte considerada grotesca por uma das estudantes. Quando questionada, responde: “Não, não está! Não é uma boa obra? Hum? Vamos lá garotas, não há livros dizendo-lhes o que descobrir, por isso, não é tão fácil, correto?”. Ainda neste diálogo, a estudante confronta a professora, apontando que “arte só é arte até as pessoas certas dizerem que é”. Empolgada com o reptador debate, a professora rebate: “E quem são essas pessoas?”.

A cena descrita supra quiçá seja uma das melhores do filme no que diz reverência aos aspectos didáticos da obra. Revela uma questão geral no aprendizagem, principalmente se pensarmos nos diversos trabalhos acadêmicos publicados continuamente em revistas virtuais, muito do jeito que trabalhos de epílogo de curso: há muita cacofonia, repetição de ideias e colcha de retalhos de teóricos que muitas vezes possuem ideias ou fazem seção de conglomerados intelectuais díspares e confrontantes. As ideias próprias, defendidas com embasamento teórico que deem somente suporte para a construção de uma tese são, muitas vezes, substituídas por compêndios de teorias alheias, com o mínimo de participação do responsável em si. Em suma, o filme revela, neste trecho, a urgência de textos, reflexões e posturas mais críticas, seja qual for o envolvente de circulação de conhecimento.

Outra cena marcante está no trecho em que as estudantes deslocam-se para o ateliê para a realização de uma oficina com as obras de Van Gogh em caixinhas. A professora discursa sobre a possibilidade de popularização da arte com o processo de reprodutibilidade técnica. Isso nos remete ao antológico texto de Walter Benjamin, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. No texto o teórico aponta que o processo de reprodução provocou um profundo tremor da tradição, pois disponibilizou a arte enxurrada de “aura” para as massas.

Ela abre a mente das suas alunas para melhor refletirem sobre as suas respectivas existências em uma estação específica, período em que as mulheres são treinadas para exercerem as funções do conúbio: lavar, passar, cozinhas e fornecer filhos aos seus esposos. Diante deste quadro, haverá conflitos, pois Mrs. Watson oferecerá novas possibilidades, o que não será muito visto por outros colegas, por algumas estudantes (e por seus membros familiares ligados ao conservadorismo na sociedade).

No que tange aos aspectos formais, o filme é primoroso. Trilha sonora empolgante, enquadramentos metalinguísticos, pois se assemelham a pinturas, movimentação de câmera equilibrada, elementos oriundos de uma ótima meio do diretor Mike Newell e da direção de retrato, também eficiente. O roteiro de Lawrence Connor e Mark Rosenthal consegue fazer os conflitos gravitarem muito em torno da narrativa, sem muita dissipação e com o devido destaque para cada personagem.

Por falar em roteiro e personagens, não dá para permanecer alheio à poderosa metáfora do título. O que há por detrás do sorriso de cada uma das mulheres do filme? Betty (Kirsten Dunst) é uma das centrais no grupo. Invejosa, persegue a felicidade através da consumação do matrimônio e sabe que está em um porvir conúbio fadado ao fracasso. Não consegue ver ninguém mais feliz que ela. Em contrapartida, temos a gentil Joan (Julia Stiles), uma verosímil estudante de Direito que incentivada por Katherine a fazer as duas coisas: estudar e cuidar do lar.

Connie (Ginnifer Goodwin) representa o desespero de uma pequena que não confia em si o suficiente para permanecer com alguém. Com baixa autoestima, é perseguida continuamente por Betty, que não cansa de substanciar a sua suposta inferioridade diante das outras colegas. Giselle (Maggie Gyllenhal) é a subversiva do grupo, totalmente liberal, bebe bastante, possui uma lista de amantes que vai desde os homens casados ao seu professor de italiano, um passageiro romance da professora Katherine Watson enquanto passou por aquele pequeno, mas enaltecedor, período na Wellesley College.

Diante disso, percebemos que ao lado do sorriso de encantamento da professora, há outros sorrisos cheios de significados. Betty apostou no paixão, sorri superficialmente, mas está tomada pela infelicidade. Joan sorri naturalmente, pois acredita que o movimento feminista é feito de escolhas, e a sua, consumar o conúbio antes do curso superior não a faz menos feliz que outras mulheres. Giselle sorri sempre num misto de sedução, humor e impudência, numa postura que se propõe a desafiar as convenções. Connie, meiga e simpática, sorri de forma contida, sempre e procura de mais segurança para caminhar nos terrenos em que pisa, seja o amoroso ou o intelectual.

Há um diálogo interessante sobre a simbologia por detrás do sorriso na pintura de Da Vinci. “Mona Lisa sorri no quadro, mas ela está feliz?” O questionamento nos leva a pensar sobre a subjetividade da arte e a possibilidade de múltiplas interpretações. A obra de arte de “todos os tempos”, a “quintessência” canônica exibe um sorriso que pode ser pensado do jeito que repleto de desprezo, de sedução, de humor, etc. Objeto da mais subida revelação cultural segundo os manuais de arte, a Mona Lisa é também seção da cultura de consumo massificada pela linguagem da cultura pop.

Ao longo dos seus 114 minutos de duração, O Sorriso de Monalisa é dócil, dinâmico, repleto de conflitos que desaguam nos clichês que já conhecemos: estudante rebelde que se torna dócil, a incompatibilidade amora, dentre outros. É preciso pensar, entretanto, que não é um documentário educacional encomendado pelo MEC (caso fosse brasiliano) ou alguma instituição estadunidense focada na ensino. É um drama fundamentado em informações que os roteiristas recolheram dos relatos de Hillary Clitton, personagem importante do cenário político contemporâneo, ex-estudante e testemunha ocular de alguns acontecimentos conservadores da instituição de ensino para mulheres.

É um filme que pode ser pensado do jeito que de inspiração para o trabalho na sala de lição. Capacitar professores, ajudando-os a refletir sobre do jeito que mourejar com adversidades, muito do jeito que repensarem as suas metodologias de ensino, ou logo, exibi-lo aos alunos do jeito que uma narrativa-espelho de certa tempo da sociedade e do contexto no qual eles estão inseridos: o educacional.

Diante do exposto, é preciso certos “lugares comuns” para engendrar a narrativa e torna-la de circulação mais ampla. Os tais clichês sequer atrapalham os principais pontos tocados nesta reflexão. É aí que retorno para o diálogo com o meu ex-colega de trabalho. A narrativa pode ser ruim, boa, ótima, razoável, apropriada ou com alguns pontos desviantes. O que cabe no ato de exposição é a mediação que o profissional faz. É espremer o sumo que puder do que há de mais simples, enfim, não é somente de complicação que se faz a vida.

Os “falsos profetas” do ensino, aqueles que acreditam que passar uma adaptação de Shakespeare muito complexa e hermética fará os estudantes aprenderem mais, um aviso: só lamento. Pelos alunos e pelas suas convicções míopes do jeito que profissionais. Além de se enganarem, estes professores tornam o aprendizagem uma tortura intelectual sem precedentes. Felizes são aqueles que encontraram as suas versões de “Katherine Watson” e “John Keating” pela vida estudantil. Eu encontrei os meus, custoso leitor, e você, teve essa sorte?

O Sorriso de Monalisa (Mona Lisa Smile, Estados Unidos – 2003)
Direção: Mike Newell
Roteiro: Lawrence Konner, Mark Rosenthal
Elenco: Dominic West, Ginnifer Goodwin, John Slattery, Julia Roberts, Julia Stiles, Kirsten Dunst, Maggie Gyllenhaal
Duração: 117 min

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