Os Crimes do Alfabeto (1965)

Filme da reta final da curso do diretor Frank Tashlin no cinema, Os Crimes do Alfabeto é uma adaptação cômica do romance Os Crimes ABC, de Agatha Christie. A primeira tempo da produção tinha a teoria de elencar Zero Mostel no papel de Hercule Poirot, mas o início das filmagens demorou consideravelmente para debutar, dadas as objeções da Rainha do Crime para com o roteiro. Um pouco a contragosto, sua autorização foi dada e o filme seguiu adiante, mas com Tony Randall dando vida ao famoso detetive belga, assumindo com sucesso o tipo de personagem cômico numa posição que deveria ser séria; posição que o diretor Frank Tashlin sabia explorar muito muito, pois construíra uma curso dirigindo os mais diversos tipos de comédia, com as mais diversas mesclas de gêneros.

Embora exista uma enorme diferença em relação ao romance (cá, temos exclusivamente a teoria médio dos assassinatos, com a forja de um cabrão expiatório e a presença dos guias ABC nas cenas do transgressão), o longa consegue um resultado inesperadamente positivo ao retrabalhar a presença de alguns personagens e até mesmo modificar a concepção universal para Poirot, o que é sempre um ponto frágil nas adaptações de obras da Rainha do Crime. A questão é que um Poirot bufão neste filme, cabe perfeitamente às intenções do roteiro, e vejam que, se isso acontece com o protagonista da obra, imaginem com os coadjuvantes.

O maior destaque dentre essas mudanças vai para o Capitão Hastings (Robert Morley), que não tem absolutamente zero da versão original, mas, confesso, está muito melhor assim. Seu desenvolvimento é muito caricato e o ator faz um ótimo trabalho ao imprimir uma face mais séria a um personagem atrapalhado e azarado, todavia, companheiro e sagaz quando chega o momento notório. Eu ainda preferiria que ele aparecesse uma vez que um parceiro de longa data de Poirot, mas esse “primeiro encontro” entre os dois não atrapalha o curso da história, posto que o próprio detetive bigodudo é tratado uma vez que uma novidade no Reino Unido e, por questões óbvias, a produção deslocou a investigação dos anos 30 para os anos 60, evitando os esperados problemas de orçamento para um “filme de idade“. Além de fortalecer a abordagem cômica de um “detetive retrógrado em uma Nova Era da polícia britânica”.



Tashlin faz o que pode para inserir gags e outras brincadeiras visuais ao longo do filme, mas é na primeira segmento que ele alcança os melhores resultados. O testemunha encontrará elipses inteligentes; montagem interna que brinca com o deslocamento dos personagens e edição que brinca com os espaços onde esses personagens estão; jogos internos uma vez que ponto de partida para aluns encontros (vide a cena do boliche); e um hilário jogo de espelhos que é o meu predilecto momento da direção nesse filme, quando Poirot se encontra com Hastings pela primeira vez, na sauna. Junto a isso, o ponto de partida metalinguístico e com quebra de quarta parede mais o cameo maravilhoso da grande Margaret Rutherford, uma vez que Miss Marple, ajudam a laurear a comédia e abrem o leque de tratamento para o protagonista e para a obra de Christie uma vez que um todo.

Os problemas do filme começam a surgir no segundo ato, quando o celerado vai pouco a pouco ganhando forma. E aí também começamos a colocar o pé detrás em relação ao próprio curso da investigação realizada por Poirot. Se o seu encontro com a personagem de Anita Ekberg (em atuação canastrona) é o ponto de partida para a sua ingresso no jogo a médio prazo, o roteiro parece não querer dar a Poirot espaço para ele pensar de maneira mais metódica, o que para mim, foi um erro. Notem que eu não me importei com a transformação do detetive em uma persona cômica. Isso diverte e serve muito à proposta do filme. Mas daí até tirar dele a oportunidade de SER um detetive é outra história, e daquelas muito ruins. A investigação segue, mas não da maneira que esperamos de Poirot. Os encontros, deduções e induções são superficiais, majoritariamente caricatos, óbvios… e servem mais uma vez que gancho para uma piada do que para curso da solução do transgressão, o que podemos expressar ser um outro passo em falso do texto, já que o roteiro estava muitíssimo muito servido de piadas (literais e visuais); não era necessário mais uma nascente para elas.

Os Crimes do Alfabeto é, em primeiro lugar, uma comédia baseada na obra de Agatha Christie. Em segundo lugar é que aparece o mistério, mas a sua exploração não é nem de longe a real preocupação da fita. Em alguns momentos isso atrapalha a nossa opinião da obra, mas na cena seguinte já estamos rindo com uma situação em que Hastings se meteu ou com o passo seguinte para a investigação em curso. Vale para dar umas boas risadas, reputar um criativo trabalho de direção e uso de câmera e ver uma vez que um enredo tão sério uma vez que o de A.B.C. Murders pode ser reinterpretado e disposto em uma comédia com boas doses de maluquice.

Os Crimes do Alfabeto (The Alphabet Murders) — Reino Unido, 1965
Direção: Frank Tashlin
Roteiro: David Pursall, Jack Seddon (fundamentado na obra de Agatha Christie)
Elenco: Tony Randall, Anita Ekberg, Robert Morley, Maurice Denham, Guy Rolfe, Sheila Allen, James Villiers, Julian Glover, Grazina Frame, Clive Morton, Cyril Luckham, Richard Wattis, David Lodge, Patrick Newell, Austin Trevor, Alison Seebohm, Windsor Davies, Sheila Reid, Stringer Davis, Sally Douglas, Drewe Henley, Margaret Rutherford
Duração: 90 min.

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