Pai e Filha (1949)

Uma das funções mais inebriantes do audiovisual, notadamente de obras cinematográficas, é permitir que o testemunha viva outras vidas – normalmente muito diferentes das que vivemos – nem que seja por algumas breves horas. Fugir de nazistas no deserto egípcio tanto quanto Indiana Jones, incorporar um gangster tanto quanto Tony Montana ou um mafioso tanto quanto Don Vito Corleone, pilotar a Millenium Falcon tanto quanto Han Solo e lutar vestido de aranha contra vilões super-poderosos são alguns dos grandes prazeres proporcionados pela Sétima Arte. Imersão é muitas vezes a palavra-chave e, quando a luz se apaga, mergulhamos em mundos diferentes e, se a obra é realmente espetacular, só imergimos quando os créditos começam a rolar ou quando as luzes se acendem.

Filmes que lidam com a vida tanto quanto ela é tem uma tarefa mais complexa, pois eles não contam com a vantagem da “fuga”, da escapulida para uma outra verdade completamente dissemelhante. Para que o testemunha seja conquistado e levado a viver aquela outra vida na telona, agora provavelmente parecida com a sua própria vida ou pior, se não for muito pior, o cineasta precisa encantá-lo com uma precisão cirúrgica, trazendo elementos para sua geração que temos até mesmo dificuldade em identificar quais são. Yasujiro Ozu foi um dos grandes mestres nessa dificílima arte e, arriscaria proferir, Pai e Filha é sua obra mais importante e definidora.

Baseado em romance homônimo do título em português de Kazuo Hirotsu, Banshun – ou “Primavera Tardia” (Late Spring, em inglês) – é o primeiro filme da chamada Trilogia Noriko de Ozu, completada por Também Fomos Felizes, de 1951 e o estupendo Era uma Vez em Tóquio, de 1953, que tem no elenco Setsuko Hara sempre tanto quanto uma jovem solteira chamada Noriko, ainda que uma sem relação com a outra. Aliás, Pai e Filha marca a primeira de seis vezes que a magnífica atriz trabalharia com Ozu e o simples primícias da estirada final do conjunto de obras dele nas décadas de 50 e 60 que definiriam para sempre o diretor. É tanto quanto se a obra, em toda sua embasbacante simplicidade, estabelece ao mesmo tempo o término e o primícias (nessa ordem) do Ozu que mereceria constar do panteão dos grandes cineastas da História do Cinema.



O roteiro, escrito por Ozu mais uma vez em parceria com Kôgo Noda, é de um desvelo tocante, principalmente considerando o quanto o filme teve que driblar a increpação da ocupação americana no Japão do pós-guerra, que tentava de toda forma inibir certas tradições locais. Na história, o viúvo Shukichi Somiya (Chishû Ryû, o magnífico ator de estimação do diretor) é um viúvo que vive com sua filha solteira Noriko (Hara), de 27 anos, idade que a coloca no limite do “desejável” para conseguir um marido. O dia-a-dia dos dois é pacífico, sem grandes eventos e percebe-se uma enorme estima entre eles, mesmo considerando o proveniente distanciamento e as raras manifestações físicas de paixão que caracterizam os japoneses de Ozu. Diferente do que se poderia imaginar, mesmo considerando que a presença de Noriko por ali é extremamente útil para Shukichi, notadamente em uma sociedade pesadamente patriarcal, é ela que mais hesita em partir para outra vida, em deixar o pai quando a sugestão de um consórcio emendado começa a impor-se naquele envolvente.

Sei que muitos podem torcer o nariz para a posição da mulher que é retratada cá, mas estamos falando de um filme nipónico de 1949, pelo que precisamos ajustar nossas expectativas espaço-temporais. Aliás, essa situação – que é o ponto medial da trama – foi um dos problemas que os censores americanos encontraram com a obra, exigindo modificações cá e ali que Ozu e Noda acomodaram brilhantemente, mantendo não só suas posições de observância das tradições nipônicas, tanto quanto também inserindo críticas ao momento histórico em que as forças dos EUA – militares ou não – passaram a influenciar o estilo de vida dos japoneses, mudando-o para sempre, tanto quanto a História mostra. Portanto, a percebida subserviência de Noriko não é de forma alguma alguma coisa a ser distante, mas sim admirado no contexto disposto e que abre espaço para Hara mostrar seu talento.

É enternecedor o trabalho da atriz na obra, quem sabe o melhor sob a batuta de Ozu. Sua alegria é radiante, da mesma forma que sua inconformidade com o consórcio emendado lhe chateia, principalmente a noção de que seu pai também está pensando em matrimoniar novamente. A Noriko de Hara, apesar de mostrar-se independente e com pensamentos próprios, é a primeira a fincar os pés na tradição e considerar um segundo consórcio alguma coisa pecaminoso, o que obviamente cria um paradoxo quando ela não quer o nubente encomendado. No entanto, o elemento que se sobressai é a relação entre pai e filha, o reverência entre eles e a intimidade que compartilham. Se Hara é encantadora sozinha, junto com o veteraníssimo Chishû Ryû é tanto quanto se nenhum mais existisse, com os dois tomando a objetiva de Ozu de tal maneira que o testemunha fica transfixado, realmente projetando-se para dentro daquela vida simples, mas feliz. É nesse vista principalmente que está o grande ás na manga de Ozu para nos tragar para a obra de tal maneira que aquele cotidiano “trivial” torna-se tão interessante e esponjoso quanto uma perseguição de tirar o fôlego em qualquer filme do 007.

Mas a arte de Ozu vai muito além de sua capacidade de extrair o sumo de seu elenco ou de costurar um roteiro simples, mas sem falhas. Ao longo de toda sua curso, é verosímil notar o quanto ele foi primeiro influenciado pela fábrica hollywoodiana, demonstrando claramente sua surpresa pelas obras americanas, mas também o quanto o Cinema Europeu, notadamente o teuto, chamou sua atenção. Demorou para que o cineasta encontrasse sua voz e sua origem, e Pai e Filha é a primeira grande vez em que Ozu realmente se torna Ozu. O choque entre o velho e o moderno se faz presente no contraste entre os protagonistas, seus figurinos, suas formas de encarar a vida e até em suas maneiras de sentar – Shukichi sempre em tatames e Noriko quase sempre em cadeiras – e a grande temática do cineasta, a família e principalmente a relação entre pai e fruto, volta com força totalidade. Chega a ser curioso tanto quanto o papel de Ryû, cá, reflete o dele mesmo tanto quanto Shuhei, em Era uma Vez um Pai, de certa forma corroborando o sazão do diretor quando justapomos essas duas criações.

A cenografia detalhista ao ponto da preocupação que pontuou a curso de Ozu ganha o estabilidade perfeito em Pai e Filha, principalmente porque sua outra marca registrada, a câmera absolutamente paragem, faz-se integralmente presente cá, sem exceções. Portanto, o que vemos nos vários planos imóveis do diretor, sempre próximo ao solo, importa demais para o testemunha, valendo notar que o uso da profundidade de foco totalidade exige que prestemos atenção nas diversas camadas que ele coloca em cena para conversar conosco. Mas é uma conversa singela em sua proposta. Ozu, em sua extrema e desconcertante discrição, quer exclusivamente nos fazer “sentir em morada”. Lembram-se quando eu falei na mergulho e quando eu disse que ela é mais difícil em filmes que retratam o cotidiano? Bem, é nesses detalhes mundanos que o diretor realmente se destaca. Nada está fora do lugar, porque tudo está naturalmente em seu lugar. Sim, para nós, ocidentais, a mera ambientação oriental já sai do lugar geral, o que quem sabe exija de nós uma terceira estrato de mergulho, mas mesmo considerando isso na equação, é impressionante quando notamos o que não é para notarmos.

Pai e Filha passará despercebido do testemunha na primeira conferida, porque ele é feito para ser assim, um filme minimalista humilde que nos faz submergir em seus meandros mesmo que não queiramos, somente para desvendar que, quando piscamos novamente, 108 minutos se passaram. E isso nos obriga – ou deveria, pelo menos – a revisitar a obra para olharmos com um olhar menos seduzido, menos conquistado pelas lentes de Ozu de forma que possamos entender tanto quanto sua mágica funciona. Um filme tanto quanto esse, que nos faz viver de maneira vicariante sem que sequer percebamos o que está acontecendo, não tem preço.

Pai e Filha (Banshun – Japão, 1949)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda (fundamentado em romance de Kazuo Hirotsu)
Elenco: Chishū Ryū, Setsuko Hara, Yumeji Tsukioka, Haruko Sugimura, Hohi Aoki, Jun Usami, Kuniko Miyake, Masao Mishima, Yoshiko Tsubouchi, Yōko Katsuragi, Toyoko Takahashi, Jun Tanizaki, Yōko Benisawa
Duração: 108 min.

© 2019 Dudu Alló | Fórum | WikiAlló | Social | Privacidade| contato | Sobre |

Todos os direitos reservados. Desenvolvido por Luís Eduardo Alló