Segredo de Sangue (1998)

Segredo de Sangue é um filme pleno de potencial, material dramático tratado na cultura do desperdício, tamanha a falta de habilidade dos envolvidos em edificar uma narrativa avassaladora com temas tão polêmicos. Ao longo dos 88 minutos de projeção, adentramos na vida de personagens cheios de anseios e planejamentos, mas em enfretamento diante dos conflitos, finalmente, a vontade de um não passa sequer próxima dos interesses do outros, isto é, a matriarca da narrativa vai tornar a vida da nora um inferno de dimensões impensáveis.

Tal inferno poderia ser dantesco, mas infelizmente fica mais para o inferno da telenovela brasileira A Viagem, muito levado por sinal, mas pouco trabalhado, tamanha a artificialidade e pressa do cineasta Jonathan Darby no desfecho da história, guiada pelo roteiro que escreveu em parceria com Jane Rusconi. O ponto de partida para a história é a gravidez de Helen (Gwyneth Paltrow), namorada do bonitão Jackson (Johnathon Schaech). Certo dia, a moça é assaltada na rua e fica muito assustada, o que deixa seu querido preocupado e preste a convidá-la para passar qualquer tempo na herdade da sua família.

Diante da situação exposta, Helen aceita o invitação e conhece a adorável Martha Baring em plena estação de Natal. Interpretada pela fabuloso Jessica Lange, atriz que cá desempenha com garra um dos papeis medianos de sua longa e respeitada curso, a matriarca é prestativa, gentil, educada, mas ao poucos, começa a desenvolver um comportamento inadequado. As suas crises de ciúmes deixam o público sem saber exatamente se é alguma coisa relacionado ao fruto estar focado noutro relacionamento, o que pode deixa-la obsoleta no quesito atenção, ou portanto, para erguer as doses de polêmica, quem sabe haja uma atração sexual implícita, material ideal para os freudianos refletirem.



O problema disso tudo é que o roteiro peca por deixar margem para interpretações, mas fugir da abordagem quando há oportunidades de reflexão. O que poderia ser um filme repleto de camadas generosas de debates sobre modelos de família, traumas do pretérito, posturas psicóticas e outros tópicos relevantes, torna-se somente um resultado de entretenimento que prende a nossa atenção, mas alcança um desfecho tão veloz que sequer temos tempo para digeri-lo. Há em Segredo de Sangue uma atmosfera envolvente, um “quê” de vai ter uma reviravolta incrível, mas no saldo final ganhamos o capital de um pacote clichê, sem nenhum bônus narrativo para tornar a produção alguma coisa rememorável.

Isso não significa, entretanto, que a produção não funcione tanto quanto entretenimento. Os jogos sádicos, a trajetória de planos diabólicos e outros acontecimentos, tal tanto quanto o parto forçadamente induzido nos fazem respirar fundo e temer pelos personagens, mas nenhum além da superfície, numa narrativa que promete o tempo todo, mas lapso a cada mudança de conjunto dramático. Dominado pelas duas principais figuras femininas de sua vida, a mãe e a companheira, Jackson é o típico personagem “bipolar”, uma espécie de cachorro “não esperto humano” que segue o estalar dos dedos de quem te labareda primeiro.

Em suma, um sujeito manipulado por duas forças antagônicas, uma  vilanesca e a outra o arquétipo da coitadinha. Quem é muito esperta na história é a avó de Jackson, trancafiada num asilo de luxo, mas cônscio do caráter da nora que sempre soube, é a exemplificação maléfica do que a sociedade tem tanto quanto maternidade. Ao receber a visitante de Helen, esbraveja que Martha era uma mulher destinada a limpar bosta de cavalos, mas lutou tanto para ter um sobrenome importante que acabou detendo numerário e um lar de luxo em seguida a morte do marido em circunstâncias trágicas, alguma coisa que saberemos, também, ter sido segmento de um dos jogos malignos da “mamãe perigosa”.

Narrado por uma câmera que observa com manifesto distanciamento, o filme possui direção de retrato com estilo muito próximo ao que se fazia em termo de telefilme na estação. Não que isso seja ruim, somente um pormenor significativo que nos labareda à atenção, haja vista o perfil dramático do roteiro, também parecido com aqueles telefilmes exibidos e contemplados nas noites de sábado numa estação anterior ao DVD, aos serviços de streaming e aos demais suportes que permitiam uma gigantesca massificação de narrativas tanto quanto entretenimento domiciliar.

Os figurinos de Ann Roth transformam a personagem de Paltrow numa mulher que ao circundar pela zona urbana, possui um lio de sensualidade e feminilidade, dissemelhante de sua versão rústico, apática e aparentemente desconfiada desde os primeiros momentos. A escassez de uma maquiagem mais delineada, dissemelhante do perfil construído para Jessica Lange, demonstra a eficiência do setor, segmento integrante dos elementos visuais estabelecidos pelo design de produção de P. Michael Johnston e Thomas A. Walsh. Responsável pela construção auditiva da tensão, Christopher Young faz o que a sátira adora invocar de trabalho burocrático, leia-se, ferrões nos momentos de susto e amenidades sonoras nos momentos de tranquilidade, alguma coisa capital do script.

Lançado em 1998, Segredo de Sangue é um suspense que se aproxima das tramas sobre mulheres psicopatas, subgênero do cinema que tem em Instinto Selvagem, Mulher Solteira Procura e Atração Fatal os seus principais expoentes, salvas, obviamente, as devidas proporções comparativas. A mulher desta vez é extremamente obcecada por seu fruto, alguma coisa que ocasiona problemas para todos que chegam e ameaçam o seu “trono de ferro do núcleo das atrações”.

Segredo de Sangue — (Hush) Estados Unidos, 1998.
Direção: Jonathan Darby
Roteiro: Jane Rusconi, Jonathan Darby
Elenco: Debi Mazar, Gwyneth Paltrow, Jessica Lange, Johnathon Schaech, Kaiulani Lee, Nina Foch, Richard Lineback, David Thorton,
Duração: 90 min.

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