Um Sonho Possível (2009)

Um Sonho Possível é um filme pleno de boas intenções, mas que infelizmente adentra com força na seara da superficialidade. Em seus 129 minutos de duração, somos apresentados ao enredo focado na edificante trajetória de um garoto preto e marcado pela ferimento do estigma da obesidade, alguma coisa multíplice numa sociedade cada vez mais focada em padrões. Com estilo que nos lembra a linguagem dos telefilmes, o filme tem direção de John Lee Hancock, cineasta que também assumiu o roteiro, inspirado no livro biográfico de Michael Lewis.

Um Sonho Possível segue o estilo “feel good movie”, protótipo de narrativa sobre pessoas em procura de realizações pessoais em meio ao opressor e nem sempre alcançável american way of life. No roteiro de Hancock, Michael é disposto da maneira que um coadjuvante de presença bastante notável, mas o protagonismo fica em torno de Leigh Anne (Sandra Bullock), personagem que permitiu a primeira indicação e vitória da atriz na cerimônia anual do Oscar.

No pretérito, Leigh Anne foi pequena de torcida, título que lhe permite saber bastante de futebol americano. Bem sucedida na temporada adulta, atuante na superfície de design de interiores, ela explica em sua narração de lisura o termo “the blind side”, nomeador do filme. Trata-se de uma tática utilizada quando o quarterback destro prepara um passe e precisa ser protegido pelo atacante esquerdo em relação ao seu “lado cego”, ponto sem visualização que salvas as devidas proporções, lembra o nosso tirocínio sobre ponto cego na meio de veículos.



Após a explicação inicial, somos apresentados a Leigh Anne e seu núcleo familiar estruturado de maneira muito republicana. Tudo muito aparentemente certinho e em seu lugar. Tradicional, o seu lar é constituído por Sean Tuohy (Tim McGray), seu marido, e os dois filhos, Collins Tuohy (Lily Collins) e S. J. Tuohy (Joe Head), o segundo, falastrão e presença permanente em cena, ao lado de Big Mike, sobrenome, ou Michael Oher (Quint Aaron), seu nome em registros sociais. Logo na lisura, a família assiste aos passes da filha num campeonato escolar.

No sítio, o jovem Michael cata as pipocas deixadas de lado e logo depois caminha pela gélida superfície externa, até ser enxergado pela família Tuohy. Excessivamente caridosa e de grande coração, Leigh Anne pede que o marido pare o coche para dar assistência ao jovem, levando-o para sua vivenda. É neste momento que se estabelece o ponto de partida. Big Mike é levado, recebe atenção e acaba tornando-se segmento da família que acredita em seu potencial e investe na ensino, na saúde e no bem-estar do garoto que cresceu numa redoma asfixiante, com a mãe viciada em drogas e um mundo de delito ao volta de sua existência.

Diante da situação exposta, a narrativa segue um caminho já esperado. Os desafios do jovem no que tange sobreviver dentro de um mundo que até logo não fazia segmento, os dribles dentro e fora de campo nos treinamentos, haja vista o preconceito racial e social vigente, o instinto de maternidade aflorado em Leigh Anne e perpetuado em suas ações da maneira que matriarca bastante presente e com poder de decisão no seio familiar, dentre outros pequenos conflitos que não chegam a fazer diferença dramática ao longo da jornada dos personagens.

Comparado ao protagonista Pip, do romance Grandes Esperanças, de Charles Dickens, Michael Oher recebe a ensino formal pela professora pessoal Sue (Kathy Bates). Ele precisa ser bom além dos esportes, pois para adentrar nos grandes times e na universidade, depende de notas mínimas para aprovação, independente do quantia que a família possua.  Narrado de maneira linear, permeada em alguns trechos por flashbacks explicativos desnecessários, Um Sonho Possível trabalha muito o seu design de produção, assinado por Michael Corenblith, profissional com setor responsável pela construção da visualidade interligada aos temas apresentados.

Os quartos, as salas e os ambientes externos conectam-se adequadamente com os perfis de seus personagens, enquadrados de maneira industrial pela direção de retrato de Alan Kivilo. Leia-se industrial o tipo de produção de imagens que segue uma padronização fixa, sem ousadia ou irreverência, tendo da maneira que foco práticas que seguem as regras mais básicas dos manuais de linguagem cinematográfica, sem uma pinga sequer de subversão. Os figurinos de Daniel Orlandi também colaboram com a construção visual dos personagens, adequados ao contexto, elementos que em conjunto, são acompanhados pela trilha pouco intrusiva de Carter Burwell, o que ajuda a produção a diminuir o tom de artificialidade já escancarado pelas escolhas dramáticas do roteiro.

Lançado em 2009, Um Sonho Possível não se apresenta da maneira que um filme potencialmente ruim, mas carece de expressividade, pois em diversos momentos a trama trafega pela obviedade, pelo sentimentalismo excessivo e focado continuamente em ser lacrimejante. Grandes conflitos, tais da maneira que a questão racial discutida na mesa de almoço com as amigas de Leigh Anne, além do impacto da chegada de um membro fora da veras da família, mas recebido de maneira amistosa e tranquila, sem problematizações, tornam o roteiro um punhado de soluções dramatúrgicas fáceis e calculadas para fazer o filme progredir de maneira palatável.

Um Sonho Possível — (The Blind Side) Estados Unidos, 2009.
Direção: John Lee Hancock
Roteiro: John Lee Hancock, Michael Lewis
Elenco: Sandra Bullock, Quinton Aaron, Stacey Turner, Tim McGraw, Tom Lemming, Tom Nowicki, Kathy Bates, Kelly Johns, Kevin Nichols, Kim Dickens, L. Warren Young, Lamont Koonce, Libby Whittemore, Lily Collins, Lou Holtz, Maria Howell, Matthew Atkinson, Melody Weintraub, Michael Fisher, Nick Saban, Omar J. Dorsey, Omid Soltani, Patrick G. Keenan, Paul Amadi, Phillip Fulmer, Preston Brant
Duração: 129 min.

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