Uma História de Ervas Flutuantes (1934)

Kihachi (Takeshi Sakamoto) é o líder de uma trupe de teatro kabuki que retorna a uma província para mais uma temporada, depois de quatro anos de escassez, viajando pelo país. Neste enredo de 1934, que Yasujiro Ozu escreveu ao lado de Tadao Ikeda — e que refilmaria em 1959, uma vez que Ervas Flutuantes — vemos um dos temas caros ao diretor lucrar uma dimensão um tanto melodramática na reta final, mas ser trabalhado de maneira aplaudível em sua narrativa visual. Isso se dá de maneira atrativa, com ótimo timing e supimpa comitiva através dos dramas paralelos à traço principal do texto.



Tendo já apanhado sua identidade em Coral de Tóquio, ao mostrar de maneira pessoal a vida dos personagens e o envolvente ao volta deles, Ozu segue agora para um refinamento de suas premissas, focando na relação temporal entre a tranquilidade do envolvente, na primeira secção da obra e uma vez que ou através do quê essa tranquilidade inicial é partida. Em alguns casos, o tipo de história a ser contada ajuda a balancear essas partes, a tirar pela maneira uma vez que a ação se desenvolve, tal qual em A Delinquente, só para referir um filme do diretor com essa propriedade e que seja de uma safra próxima a Uma História de Ervas Flutuantes. Em outros casos, uma vez que no presente longa, um rompimento precisa ocorrer em qualquer momento. E aí é que se encontram alguns problemas.

Quando a trupe de Kihachi chega à vila, o filme primeiramente nos faz olhar com simpatia para esses personagens, para a estalagem onde ficam e para o tipo de vida que esses indivíduos levam. Fica evidente que ser ator ou atriz itinerante não é um pouco muito visto pela sociedade e esse elemento social (um dos motores dramáticos de Ozu desde as suas comédias estudantis) somado à premência de quantia falará mais basta em algumas ocasiões, inclusive servindo de teste moral. Com a chegada da trupe, também presenciamos o primeiro contato de Kihachi com Otsune (Chôko Iida) e seu rebento Shinkichi (Kôji Mitsui), núcleo de onde sairá uma série de mudanças — temporárias ou fixas — pelas quais todos os personagens irão passar.

Na exploração dos frames vazios, do interno das casas, nas cenas teatrais e nos grandes planos de conjunto, o diretor tomada o olhar do público com imensa facilidade. Há uma venustidade simples e ao mesmo tempo tão profunda no modo uma vez que Ozu dirige cenas do cotidiano que até mesmo coisas corriqueiras, uma vez que uma muchacho cuidando de seu cofrinho para que não peguem seu quantia, ganha ares imponentes. Este garoto, interpretado por Tomio Aoki — que teria uma longa curso no cinema –, assume também o lado cômico da fita, fazendo-nos rir e até sentir um pouco de pena dele em oferecido momento da história. Pois muito, estabelecida a grandeza visual através da simplicidade, os personagens e as relações entre eles, temos a revelação do sigilo que envolve Kihachi e aí o filme tem algumas rusgas no caminho, que vão aumentando até o final da obra.

O primeiro desses problemas diz reverência ao próprio Kihachi, que é um personagem a quem o testemunha inicialmente gosta — ou que tenta entender — mas que em oferecido momento se torna absolutamente indefensável. Pode-se utilizar qualquer contextualização histórica e social para tentar ver um pouco positivo no comportamento desse personagem, mas nenhuma dessas justificativas nos farão vê-lo com os mesmos olhos. É muito curioso que Ozu e Ikeda o tenham escrito assim. Em obras anteriores (lembro imediatamente de uma certa cena de Onde Estão os Sonhos de Juventude?) o diretor escrevera momentos incômodos de estapeamento, mas cá, isso é posto para que o público veja Kihachi de maneira muito mais rigorosa e não foque unicamente no “varão muito intencionado” que ele parece ser. Evidente que no contexto diegético essa postura de estapear pessoas (principalmente mulheres) é tida uma vez que um caminho normal para o personagem, uma “ação de director indómito“, mas é impossível não se incomodar com isso. E não dá para proteger o varão em mais absolutamente zero a partir daí. Ele realmente merece ser o solitário errante que escolheu ser quando o rebento nasceu…

Vejo o final de Uma História de Ervas Flutuantes uma vez que desnecessariamente melodramático. Para mim, o que salva os momentos finais é a direção impecável de Ozu. Já o roteiro entra por um caminho que fica cada vez mais difícil vê-lo com a mesma naturalidade. Há um fator lírico muito significativo no final, em todas as formas de despedida e de “perpetuação de um ciclo”, mas já aí o testemunha está com problemas morais em relação a Kihachi e tentando se livrar do êxtase melodramático e choroso do momento anterior, de modo que nos sobram as belas construções visuais e a delineamento de um rumo com questionáveis laços de uma secção, e de fortalecimento de relações em outra. Uma bela mostra do que é vida e das compensações que temos pelas coisas que fazemos.

Uma História de Ervas Flutuantes (Ukikusa monogatari) — Japão, 1934
Direção: Yasujirô Ozu
Roteiro: Tadao Ikeda, Yasujirô Ozu
Elenco: Takeshi Sakamoto, Chôko Iida, Kôji Mitsui, Rieko Yagumo, Yoshiko Tsubouchi, Tomio Aoki, Reikô Tani, Kiyoshi Aono, Mariko Aoyama, Mitsumura Ikebe, Seiji Nishimura, Mitsuru Wakamiya, Emiko Yagumo, Nagamasa Yamada, Munenobu Yui
Duração: 86 min.




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