Crítica | Deixando Neverland

Além de sua imensurável contribuição para a música pop, falar de Michael Jackson atualmente é praticamente sinônimo de polêmica. O cantor passou por uma fase muito controversa no início dos anos 2000, quando foi acusado de abuso sexual por um garoto de 14 anos, iniciando uma série de eventos que iriam mergulhar sobre o comportamento visto como incomum por parte da mídia, enxergando sua inclinação a temas mais infantis e o contato com crianças – algo sempre visto por parte dos fãs como um substituto para sua infância apressada – como pedofilia mascarada.

É nessa ferida que o documentário Deixando Neverland insiste em cutucar, provocando diversas reações explosivas, ameaças e até mesmo um processo milionário do espólio de Jackson contra a HBO; que obteve uma recepção chocante durante sua primeira exibição no Festival de Cinema de Sundance deste ano. Ao longo de 4 horas e duas partes, a obra do diretor Dan Reed toma o ponto de vista de duas das mais conhecidas vítimas de abuso do cantor: James Safechuck e Wade Robson, que alegam ter sido molestados sexualmente quando ainda eram crianças, em passagem pelo rancho Neverland, propriedade de Jackson inspirada no local mágico da história de Peter Pan.

Claro, o caso envolvendo as acusações de Jackson não é dos mais simples, e gera diversas controvérsias em uma era onde o MeToo é capaz de expor monstros como Harvey Weinstein e Kevin Spacey. Jackson ainda tem uma devota legião de fãs que acredita cegamente em sua inocência, que chegou a ser decretada na Justiça americana em 2005. A verdade nessa história é algo que fica subjetiva a interpretação do indivíduo, até mesmo porque Jackson não está mais vivo,



O documentário debruça-se sobre a vida dos dois homens. De início, acompanhamos como Wade Robson cresceu na Austrália como grande fã da música e dança de Michael Jackson, entrando no radar do cantor ao ganhar uma competição de dançarinos inspirados no cantor durante sua turnê de Bad na década de 90. A trajetória de Safechuck é bem parecida, com o jovem de Los Angeles ganhando a oportunidade de dançar ao lado de Jackson em alguns de seus shows, logo ganhando a afeição do cantor e sendo levado – junto com sua família – para uma carreira de dançarino em todas as suas apresentações. Estruturalmente, é difícil se perder na quantidade de informações, até porque Reed opta por uma narrativa que mistura o início das duas histórias; e a semelhança entre elas pode causar alguma confusão sobre quem é quem nos primeiros minutos do longa; além da longa duração causar algumas dispersões desnecessárias, especialmente sobre o irmão de Wade.

Quando a história então foca-se somente sobre os testemunhos individuais, Deixando Neverland encontra sua força. Reed reúne entrevistas com os dois “protagonistas” e membros de suas famílias, rendendo testemunhos que se alongam e exploram diversos aspectos fascinantes sobre o que significava conhecer alguém famoso naquela época. O que impressiona também é como tanto os pais de Safechuck e Robson foram de braços abertos para as investidas e convites de Jackson, e é possível notar como – apesar de tudo o que se desenrola pelas próximas horas – membros dessas famílias parecem demonstrar um curioso afeto e nostalgia ao comentar sobre essa época aparentemente glamourizada; que Reed preenche com clipes e inserts de jornais, vídeos da época e trechos de cartas escritas a mão.

Quando Safechuck e Robson começam a descrever o início dos abusos, é quando o espectador realmente vai encontrar dificuldades para continuar assistindo. A descrição dos supostos atos é assustadora, e é possível notar resistência e desconforto em ambos para falar continuamente sobre os pavorosos atos sexuais. E como obviamente não é possível mostrar nada disso, Reed aperta a faca ao intercalar o discurso de Safechuck com algumas fotos de quando este ainda era criança, entrecortando seu diálogo com a mesma foto antiga, mas com um close mais próximo a cada corte. Inevitavelmente, Reed está fazendo o espectador imaginar aqueles atos, em um poder de sugestão similar à técnica do Efeito Kuleshov, onde a sobreposição de imagens acaba criando um efeito subjetivo no espectador. Não são cenas fáceis de se assistir, e acredito que até mesmo os apoiares mais devotos de Michael Jackson iriam se questionar.

Deixando Neverland não é uma experiência fácil, e cuja longa duração de 4 horas acaba provocando alguns momentos de dispersão narrativa. Porém, seus testemunhos são impressionantes e o trabalho de direção e montagem de Dan Reed é muito inteligente. Se o documentário evidencia um fato ou não, ficará no julgamento do espectador, mas certamente será capaz de provocar reações extremas.

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