Everybody’s Gone to the Rapture

O sítio é Shropshire, no oeste da Inglaterra. A data, junho de 1984. E todo mundo desapareceu.

Ao iniciar a jogar Everybody’s Gone to the Rapture, disponível somente para PlayStation 4, já senti logo de faceta que não seria uma experiência generalidade tanto quanto qualquer outro jogo. O título criado pelo estúdio The Chinese Room (responsável também por Dear Esther) vai figurar eternamente nas discussões sobre games que caminham na risca tênue entre jogos, cinema e arte. Muito por conta disso, é imprescindível proferir que Rapture é um jogo que vai aprazer a quem aprecia uma boa história e, mesmo assim, pode rematar incomodando os mais ávidos entusiastas de games focados na narrativa, devido a seu ritmo lento.

A atividade principal em Rapture é explorar — andando bastante. Sua única forma de interação é o estreitar de um botão para transfixar portas e ativar rádios/telefones que funcionam tanto quanto diários em áudio. E só. A velocidade do caminhar e até do passar (é preciso manter o botão R2 pressionado por aproximadamente de cinco a sete segundos para, de evidente, passar) é lenta, o que por um lado deixa você mais imerso no mundo, mas ao mesmo tempo diminui a fluidez do jogo.

Apesar disso, explorar o vilarejo de Shropshire leva você a deslindar o que acontecia naquele lugar antes do sumiço de todos, mas de uma forma dissemelhante.

A história de Everybody’s Gone to the Rapture é contada por meio de seis personagens principais, divididos informalmente em capítulos. Um ser feito de luz (carinhosamente denominado por mim de “luzinha”) funciona tanto quanto guia e, por meio dele, assistimos a reproduções de momentos das vidas desses personagens anteriormente ao desaparecimento de todos. É notável tanto quanto a equipe da The Chinese Room conseguiu produzir um mundo realmente vivo, mesmo que inabitado.



Isso se dá não só pelas tramas dos moradores do vilarejo, cheias de dramas, mas por motivo da construção dos cenários. Objetos deixados pelos habitantes de Shropshire — piqueniques montados sobre a grama, livros, a organização das casas, cartazes, um trem elétrico montado — deixam evidente o que as pessoas faziam antes de sumirem e também servem para relatar melhor essas histórias.

Se há uma particularidade que, ao menos, garante que Rapture seja de evidente um jogo, é a liberdade que dá ao jogador na hora de seguir a história. Você pode sempre ser guiado pela “luzinha”, mas caso desvie do caminho e acabe entrando em diferentes partes do vilarejo, tudo muito. Talvez você inicie o roda de outro personagem, mas pode voltar a qualquer momento para a narrativa em que estava antes. Não há uma ordem pré-definida para seguir a narrativa e você pode, inclusive, deixar de ver o desenrolar da história de determinado morador e ir direto para o final.

No entanto, recomendo que se observe e explore todas as partes do planta, pois além do que seria a história principal, há várias lembranças menores e opcionais que dão ainda mais background aos habitantes de Shropshire.

Dito isso, a formosura do cenário e a interessante narrativa nenhum seriam se não fossem acompanhadas da ótima trilha sonora (disponível para audição no Spotify), composta de hinos orquestrados e ruídos do envolvente. As canções variam de melodias calmas, quase etéreas, a tons mais melancólicos que amplificam a solidão e o desespero do término do mundo iminente. A “luzinha” também emite sons misturados do que seriam as vozes de todos os desaparecidos.

Sinais de rádio e barulhos que se assemelham a interferências em redes telefônicas indicam para o jogador que há um quotidiano em áudio próximo. Isso leva você a investigar certas partes do cenário que possivelmente não parecessem interessantes. Tudo trabalha em prol da atmosfera do jogo — pesada e melancólica.

Ao presenciar os eventos das vidas dos moradores de Shropshire, Everybody’s Gone to the Rapture se torma um grande quebra-cabeças em que o jogador junta peças e monta teorias sobre o que aconteceu. Conforme a exploração continua e novas informações são descobertas, suas teorias são derrubadas ou confirmadas — a experiência é deleitável o suficiente para manter você recluso até o término, independente da lentidão da jogabilidade.

Talvez o que seja mais notável no trabalho da The Chinese Room é a forma tanto quanto as temáticas abordadas variam, desde a conflitos pessoais e familiares a coisas muito maiores que não podem ser ditas por motivos de… spoilers. O jogador vai acompanhando a narrativa e, de repente, tudo se torna muito maior e extenso — você acaba ficando pequeno diante de toda grandeza que o jogo quis transmitir.

Everybody’s Gone to the Rapture é um jogo para quem gosta de games focados na narrativa e não se importa com a falta de ação. A história é curiosa o suficiente para manter o jogador interessado, principalmente pelo evidente de que é fácil se importar com a maioria dos personagens. Agora, se você é fã de jogos de ação e de ritmo vertiginoso, passe longe.

Everybody’s Gone to the Rapture não segura sua mão até o desfecho, mas também não deixa você totalmente perdido sem saber para onde ir.

É um título que você vai amar ou odiar, dificilmente há um meio termo. É inegável que a narrativa apresentada tem profundidade e foi muito escrita — os personagens têm suas nuances, personalidades muito definidas e devidas importâncias.

É uma história empática e emocionante, que chega a abordar temáticas inesperadas, mormente em sua desfecho. Rapture vai muito além da saga do desaparecimento de pessoas em um vilarejo e, depois o final inesperado, é capaz de conduzir sua cabeça para muito longe em pensamentos.

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