Metal Gear Solid V: The Phantom Pain

Você, fã desde garotinho de Metal Gear, tente relembrar agora dos momentos mais marcantes que essa franquia já te proporcionou. Talvez você lembre de uma entre tantas lutas memoráveis contra chefões que nem Psycho Mantis ou The Sorrow. Ou Otacon chorando a morte de sua mana Emma. Talvez você pense no gatilho que precisou apoucar para dar um término à vida de The Boss, ou no reencontro entre um velho Snake e Big Boss em um cemitério durante o outono.

Todos esses momentos incríveis, tecidos de maneira lenta e metódica ao longo de quase 30 anos, formaram o misticismo e o fanatismo que envolvem uma das maiores e mais importantes marcas da história dos videogames. E Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, é a desenlace absoluta e derradeira de toda essa história. Como fã, você pode estar esperando grandes cenas épicas, uma trama dramática com a típica marca autoral de Hideo Kojima. Mas deixo avisado que não é isso o que você vai encontrar na última proeza de Snake.

Porque, em uma reviravolta típica do maroto Kojima, Metal Gear Solid V não foi feito para nos descrever uma história. Ele foi feito para nos deixar que nem legado final um jogo memorável em que nós, pela primeira vez na série, somos capazes de edificar nossas próprias narrativas. É o que Kojima nos oferece, em sua despedida derradeira da trama que ele idealizou e solidificou em nossos corações: um jogo — ou melhor, o jogo — de Hideo Kojima.

Metal Gear Solid V é a antítese de seu predecessor. Em Metal Gear Solid 4 (2008), Kojima tentou amarrar todos os nós soltos para concluir, de uma vez, a história de Solid Snake. Ele fez isso de maneira autoral e cinematográfica, exigindo dos jogadores paciência para encarar longas e complexas cenas não interativas que nos explicavam cada pormenor de sua conturbada trajetória. The Phantom Pain faz o inteiro oposto.



Namorando os ideias de narrativas personalizadas construídas pelo próprio jogador, Kojima cria um jogo em que o foco inteiro é na experiência de jogar. E todos nós sabemos que, apesar de apaixonar descrever histórias cheias de bizarrices, Kojima é um dos melhores designers de games que esse mundo já viu.

Todo Metal Gear é jocoso de se jogar, mas The Phantom Pain é sem dúvidas o mais intenso, emocionante e recompensador de todos. Cada momento com o controle na mão, cada decisão que você toma, cada reação rápida que precisa ter para solucionar o imenso quebra-cabeça de furtividade e ação do jogo, tudo isso tem um poder catártico imenso. Seja você um rabino da furtividade, paciente e metódico, esgueirando-se em procura da próxima presa para expulsar da equação ou um soldado violento e cruel prefere atirar antes de perguntar, Metal Gear Solid V cria incessantemente pequenas e marcantes histórias que você vai querer descrever para seus os amigos na mesa do bar.

Ontem, por exemplo, eu afugentei um grupo de ovelhas para o meio da estrada para forçar um caminhão de a parar. Aproveitei a distração para render o motorista, roubar o caminhão, enchê-lo de bombas remotas e invadir a base inimiga no meio da noite. Quando os soldados foram investigar o que estava acontecendo, explodi tudo. Já hoje, na mesma situação, determinar usar as fezes frescas do meu cavalo para fazer o caminhão derrapar. Matei o motorista e deixei ele lá, enquanto avançava sorrateiramente pela base, eliminando cada soldado que encontrava sem ser detectado.

The Phantom Pain é um parque de diversões para tudo o que aprendemos jogando Metal Gear até hoje. A liberdade oferecida por Kojima nessa novidade proeza — um mundo ingénuo, vasto e densamente recheado com detalhes, minucias e pequenas ideias geniais de jogabilidade — permitem que a curtição do jogo venha das nossas próprias mãos, do nosso próprio esforço e dos desafios que impomos a nos mesmos durante essa gloriosa reinação de espião.
As escolhas de Metal Gear V não são artificiais. Elas têm impacto subitâneo e irreversível em cada uma das missões. Como se infiltrar, onde pousar seu helicóptero, qual companheiro trazer com você, quantos inimigos expulsar e que nem fazer isso. Todas essas pequenas decisões que ficam entre você e seus objetivos são o verdadeiro e mais marcante elemento da franquia Metal Gear, e elas encontram seu auge neste novo jogo.

Estranhamente, isso faz com que os momentos de linearidade narrativa de The Phantom Pain sejam os seus pontos mais baixos. Quando precisamos ceder um pouco da liberdade com a qual nos acostumamos para permitir que a trama se desenvolva, nos sentimos privados do que há de melhor no game.

Esses momentos, por sorte, não são muito comuns, mas eles existem e destoam completamente do que torna Metal Gear Solid V um jogo tão sensacional. É o sacrifício que temos de fazer para obter as tão sonhadas respostas e desfechos que, que nem fãs, nós estamos ansiosos para desenredar. Então, somos obrigados a encarar alguns inimigos dos quais não conseguimos nos esconder, ou fugir de máquinas gigantes que não podemos destruir, afetando assim a nossa partida furtiva perfeita.

A vastidão e liberdade inteligente das missões de Metal Gear Solid V, no entanto, é unicamente segmento do que torna o jogo tão impressionante. Fora dos desertos do Afeganistão onde passamos boa segmento da proeza, ainda temos que trabalhar que nem gestor e comandante de uma base militar que é importante para a experiência do jogo. Snake é, mais do que nunca, o Big Boss que sempre ouvimos falar com tanta reverência ao longo de toda a série. Gerenciar seu tropa privado é uma tarefa árdua e exigente, mas que vale todo o sacrifício.

Em nossa base-mãe, podemos alocar recursos para equipes de pesquisa e desenvolvimento que, por sua vez, elaboram novos e interessantes equipamentos para serem usados durante nossas missões. Também encontramos e recrutamos aliados que nos auxiliam, de maneiras únicas, em nossas batalhas. Mesmo o seu cavalo, que deveria ser um mero meio de transporte para explorar a vastidão do planta de The Phantom Pain, pode com o tempo se tornar um companheiro fundamental em algumas estratégias de combate e infiltração. As escolhas que irão afetar sua missão começam a suceder muito antes de você tocar o solo afegão. Quais armas levar, qual coligado irá te escoltar e quantos recursos você está disposto a gastar são decisões importantíssimas que irão delinear a maneira mais eficiente de saber seus objetivos.

Ground Zeroes (2014) definitivamente foi unicamente um pequeno exemplo do que estava por vir em termos de liberdade. Quebrando todos os precedentes da franquia, The Phantom Pain é definitivamente o Metal Gear Solid de mundo ingénuo que sempre sonhamos. Livre de restrições narrativas e densamente recheado de missões — tanto as determinadas pelo jogo quanto aquelas que escolhemos para nós mesmos –, esse game certamente será curtido por muitos anos a vir. E digo isso sem sequer ter tido a oportunidade de testar todos os seus modos online que prometem oferecer ainda mais variedade para o game — Apesar das microtransações que soam um tanto absurdas quando consideramos que leste é um jogo que custa R$ 200,00.

Se esta é a experiência final e derradeira da franquia, podemos ao menos respirar aliviados sabendo que ela é certamente a mais intensa, recheada e duradoura que poderíamos ter em um jogo Metal Gear.

Independente de você ser fã ou não, The Phantom Pain é uma experiência que merece a atenção de qualquer fã de jogos de mundo ingénuo, ação e, principalmente, furtividade. A liberdade, variedade e densidade dessa experiência vão fazer a alegria dos mais diversos tipos de jogador. E não preciso nem manifestar que, para os fãs de Metal Gear, esta é uma experiência absolutamente importante.

Em sua despedida, Hideo Kojima deixa em nossas mãos seu maior e mais cobiçoso projeto, o melhor exemplo até logo de seu trabalho que nem desenvolvedor de jogos. Abandonando seu habitual espírito autoral em prol de um game que podemos curtir da maneira que muito entendemos, o recado final de Kojima é de que Metal Gear é tanto nosso quanto foi dele. Este é literalmente um jogo de Hideo Kojima, mas que foi construído também por cada uma de nossas experiências individuais. O último a trespassar, por obséquio desligue o Codec e feche as portas.

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