A origem da tragédia – Nietzsche

A Origem da Tragédia é o primeiro livro de Nietzsche, de sabor um tanto poético, é mais um estudo sobre a decadência de um gênero teatral do que propriamente uma investigação histórica ou uma invasão mítica na esfera da vida sobrenatural. Este livro, em primeiro lugar, representa uma homenagem a Richard Wagner, uma versão dos seus dramas musicais uma vez que obras de arte totais que igualam as tragédias antigas.

Os gregos, na antiguidade clássica, se caracterizavam por uma sensibilidade exacerbada para o sofrimento e uma grande sensibilidade artística que se explica pela força de seus instintos. Por motivo da força de seus instintos a vida dos helenos era rica em sofrimentos.

A dolorosa violência da existência, devido à força de seus instintos, pode levá-los ao pessimismo, a negação da própria existência, o aniquilamento da vida. A materialidade deste pessimismo é a “sabedoria popular” ou “filosofia do povo”.

A arte grega tem origem nesta problemática. O mesmo instinto que cria a arte cria a religião. Os gregos criam a religião, os deuses olímpicos, para tomar a vida desejável. A geração da arte apolínea é sentença de uma urgência, pois a vida só se torna verosímil pelas miragens artísticas. Para que o helênico, povo exposto ao sofrimento, pudesse viver foi necessário mascarar os terrores e atrocidades da existência com os deuses olímpicos, da alegria e da venustidade, filhos do sonho. A arte Apolínea é um modo de reagir a um saber pessimista do aniquilamento da vida. Os deuses olímpicos não foram criados uma vez que uma maneira de evadir do mundo em nome do além-túmulo, nem uma vez que forma de ditar um comportamento religioso fundamentado na ascese, na espiritualidade, no obrigação. A religião grega é sentença de uma religião de vida, inteiramente imanente, que diviniza (torna belo) o que existe. Para evadir do saber pessimista, o helênico cria um mundo de venustidade que ao invés de expressar a verdade do mundo, é uma estratégia para que ela não ecloda.



Para os helenos venustidade é medida, simetria, ordem, proporção, delimitação, calma e liberdade com relação às emoções (serenidade). Contra a dor, o sofrimento, e a morte, o helênico diviniza o mundo, torna-o belo, criando a venustidade. Não existe belo proveniente, o belo é uma semblante (critica a Sócrates e a Platão). A venustidade (semblante) é um fenômeno, uma representação que tem objetivo de mascarar, velar a verdade principal do mundo – a Vontade, o Uno primordial.

O mundo apolíneo é o mundo da individuação (do individuo, do estado), da consciência de si mesmo. A individuação, a consciência, é semblante é representação do Uno primordial. Através do princípio de individuação se produz a transfiguração da verdade que caracteriza a arte. Esse libido originário de semblante (instinto apolíneo), de arte, é o que possibilita a paredão capaz de resistir à sabedoria pessimista – concepção apolínea da vida, hosana a semblante. Mas a consciência apolínea é somente um véu, que dissimula um mundo que não pode ser ignorado. O instinto apolíneo, virando as costas à verdade, desconsidera o outro instinto estético da natureza que não pode ser esquecido – o instinto Dionisíaco.

O instinto Dionisíaco, sem a medida apolínea, é considerado o aniquilador da vida. A arte dionisíaca em sua embriaguez proclama a verdade, a incoerência. O individuo, seus limites e medidas caem no esquecimento quando vivencia o instinto dionisíaco. A desmesura, a falta de medida, se desvela uma vez que verdade. A incoerência e a voluptuosidade nascida da dor se expressam. A experiência dionisíaca rompe com o princípio de individuação em uma totalidade reconciliação do varão com a natureza e com os outros homens, em uma desintegração totalidade do eu. O êxtase dionisíaco, a experiência do instinto dionisíaco, produz, enquanto dura, um efeito letárgico que dissipa o pretérito. É uma negação do sujeito, da consciência do estado, da cultura e da história. Mas no término do êxtase, a emoção da experiência dionisíaca que significa um aproximação à verdade da natureza, uma natureza desmesurada, contraditória, faz o varão compreender a ilusão em que vivia ao fabricar um mundo de venustidade, vivenciando o instinto Apolíneo, justamente para mascarar a verdade. Neste sentido a experiência dionisíaca é uma embriaguez do sofrimento que destrói o sonho belo. Eis que o varão retoma o sentimento de desprazer pela vida.

O pessimismo sem a arte apolínea aniquila a vida. O apolíneo sem o dionisíaco encobre, esconde a verdade.

Tragédia Àtica é a integração e não repressão do instinto dionisíaco ao instinto apolíneo, transformando o sentimento de desprazer causado pelo horror e pelo contra-senso da existência, atraindo a verdade dionisíaca para o mundo da bela semblante, transformando o fenômeno proveniente em fenômeno estático. A Vontade, o uno primordial é o inverso do sentimento estético que é puramente contemplativo e destituído de vontade (a música aparece uma vez que vontade na tragédia ática). Transforma o instinto dionisíaco puro em arte, integrando sua experiência extática ao mundo apolíneo aliviando sua força irracional destruidora. Esta é a arte apolínea- dionisíaca ou tragédia ática, que constitui o momento mais importante da arte grega, o seu auge. O dionisíaco puro é impossível de ser vivido, pois aniquila a vida. A arte ática faz a experiência dionisíaca verosímil sem ser destrutível, possibilitando uma embriaguez sem perda de consciência, tornando a embriaguez uma representação (música). Uma simultaneidade entre consciência embriaguez. A arte trágica controla o que a de desmesurado no instinto dionisíaco uma vez que se o instinto apolíneo ensinasse a medida ao dionisíaco. É uma união entre a semblante e a origem, uma fala dos dois instintos, das forças artísticas da natureza, na medida em que o apolíneo transforma em imagens os estados dionisíacos. A tragédia Ática representa o conflito entre o princípio de individuação e o Uno primordial.

A arte não tem objetivo de educar, mas de revelar o ser, proporcionando alegria, mostrando o sorte, não mascarando a dor. Na experiência trágica que a arte ática proporciona o varão se torna o próprio Uno Primordial, sentindo seu libido e seu prazer de viver. Enquanto a arte apolínea nega o sofrimento da vida e afirma a evo do fenômeno pela semblante, a tragédia ática nega o individuo justamente por ser fenômeno, afirmando a evo da vontade.

O verdadeiro (Vontade, Uno primordial) tem urgência da bela semblante para sua libertação. Uma libertação da dor pela semblante. Para Nietzsche a existência do mundo só se justifica uma vez que fenômeno estético. A origem (Vontade), força que eternamente deseja de forma irracional, tem urgência do instinto apolíneo (Principio de individuação) uma vez que consciência de si.

A consolação trágica é a confirmação da dor, a asseveração da vida. É uma certeza de que existe um prazer superior produzido pela experiência dionisíaca, somente verosímil de ser experiênciada na tragédia ática. Um estabilidade entre a ilusão e a verdade, entre a semblante e a origem: o único modo de superar a radical oposição metafísica de valores.

A metafísica do artista é a valorização da arte, e não do conhecimento racional, uma vez que atividade que dá aproximação ao ser, às questões fundamentais da existência, uma escolha contra a metafísica clássica criadora da racionalidade. A arte é a atividade propriamente metafísica, possibilitando uma experiência de vida uma vez que sendo, no fundo das coisas, indestrutível, poderosa e jubiloso, apesar da mudança dos fenômenos. É a sentença do Uno primordial, da verdade principal, na linguagem fenomênica, mais precisamente na música. Uma oposição à metafísica tradicional e a ciência que desapareceu violentamente em detrimento de uma arte racionalizada tendo Sócrates uma vez que representante desta arte.

A estética racionalista é a introdução na arte do pensamento e do concepção. Momento em que a consciência, a razão, a lógica despontam uma vez que novos critérios de produção da arte; é quando a racionalidade faz uma critica explicita a produção artística na perspectiva da consciência; quando a arte toma uma vez que critério o intensidade de nitidez do saber classificando a tragédia uma vez que irracional. O que faz a diferença é a subordinação da venustidade a razão; é o estabelecimento do postulado socrático segundo o qual só pode ser belo aquilo que é consciente e racional.

O Socratismo despreza o instinto e, portanto a arte. Nega a sabedoria justamente onde se encontra seu verdadeiro reino. Desprezando o instinto em nome da geração consciente que tem uma vez que critério a razão.

O estudo da relação entre metafísica de artista e metafísica conceitual vai além de uma questão estética, remetendo, em última instância, ao problema da verdade. É um modo de por em questão o espírito cientifico (otimismo teórico) caracterizado uma vez que crença que nasceu com Sócrates, na penetrabilidade da natureza (metafísica racional). É justamente a crença inabalável de que o pensamento, seguindo o fio da causalidade, pode atingir os abismos mais longínquos do ser e que ele não somente é capaz de saber o ser, mas ainda de corrigi-lo. Para Nietzsche, o saber trágico não foi vencido pela verdade, mas pela crença na verdade, por uma ilusão metafísica ligada a ciência. Nietzsche afirma que o problema da ciência não pode ser esclarecido no nível da própria ciência, pois lutar contra a ilusão (semblante) é uma forma de ilusão. Nietzsche se fundamenta na filosofia Kantiana que distingue o fenômeno, que é o domínio da ciência, da coisa em si, desqualificando desta forma a ciência uma vez que forma de aproximação ao ser. A estrutura conceitual racional é imprópria para exprimir a origem do mundo. A crença de que o conhecimento é capaz de penetrar consciente na origem, separando a verdade da semblante é um erro, uma ilusão metafísica.

Nietzsche preconiza o retorno da predominância da arte trágica em seu tempo, exatamente por motivo do retorno ao pessimismo prático, ocasionado pela descrença na ciência.

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