Além do bem e do mal, de Nietzsche

Jenseits von Gut und Böse. Vorspiel einer Philosophie der Zukunft (em português: Para além do bem e do mal. Prelúdio a uma filosofia do futuro), publicado em 1886, nasceu de reflexões e anotações de Friedrich Nietzsche, durante a composição de Assim Falou Zaratustra, e inicia uma nova fase literário-filosófica do autor, a sua fase de negação e destruição.

Nietzsche considerava Além do bem e do mal seu livro mais importante e mais abrangente. Quase todos os temas de sua filosofia madura estão presentes aqui: o perspectivismo, a vontade de poder e suas ramificações, a crítica da moralidade, a psicologia da religião e a definição de um tipo de homem nobre. Há também aforismos sobre arte e sexualidade, caracterizações de vários povos e países e muitas opiniões sobre personalidades históricas e artísticas. Tudo num estilo de grande beleza e precisão, a que não faltam humor, poesia e dramaticidade. Terminada a leitura, o leitor compreenderá por que as principais correntes de pensamento do século XX – como o existencialismo, a filosofia analítica e a psicanálise – reconheceram em Nietzsche um precursor.



Além do Bem e do Mal foi redigido no verão de 1885, na localidade de Sils Maria, na Suiça, e no inverno de 1885-6, em Nice, sul da França. Mas na redação foram incorporadas anotações anteriores da primeira metade da década. Após ser recusado por vários editores, Além do Bem e do Mal foi publicado às custas do autor, em agosto de 1886, numa edição de trezentos exemplares. Quase um ano depois, apenas 114 exemplares haviam sido vendidos, e 66 tinham sido enviados para jornais e revistas. Numa carta a seu amigo Peter Gast, Nietzsche disse: “Muito instrutivo! Ninguém quer o que eu escrevo”. Porém, mais de cem anos depois, a opinião da posteridade confirmou a do autor sobre a importância da obra: “É um dos grandes livros do século XIX, e mesmo de qualquer século”, nas palavras de Walter Kaufmann.

Dúvidas antigas sobre a moral humana: nossa essência é boa ou má? Nascemos bons e nos tornamos maus ou já nascemos maus e o meio é que nos coloca freios morais? Ou será que não nascemos nem bons nem maus, apenas dotados de instintos? E ainda, de onde surgiram os conceitos de bondade e maldade? Para Nietzsche, a religião, especialmente o cristianismo no Ocidente, criou valores que limitam o homem a se superar. A expressão “instinto de rebanho” em Nietzsche vem talvez de um conceito religioso, no qual a moral ensina ao indivíduo a só atribuir valor em função do “rebanho”, que também poderia ser traduzido em Estados e sociedades. O homem virtuoso, “escravo” das expectativas dos outros, das boas e das más opiniões, faz-se dissimulado, ao mesmo tempo culpado e infeliz.

Para Nietzsche, os valores não são verdades divinas imutáveis e sim criados por nós, portanto dependentes do tempo e do espaço em que se manifestam. Os critérios religiosos de bondade e compaixão que nos foram impostos acabaram se tornando um instrumento de barganha divina em troca de uma suposta imortalidade e felicidade eternas. Quando Nietzsche disse “Deus está morto”, ele estava querendo dizer que a crença em Deus estava deixando de ser razoável. E o que seria então do homem abandonado a si mesmo? Se Deus está morto e não serei mais recompensado e nem corro o risco de ser punido, então vale tudo? Não existe mais o bem e o mal?

Preferimos não nos confrontar com nossa realidade, pois se a conhecêssemos, possivelmente ela não nos agradaria, e quem sabe quando desejamos destruir algo no outro, queremos destruir aquilo que não suportamos em nós mesmos. A questão é até quanto podemos suportar de realidade. No entanto, Nietzsche não pretende dar uma solução para esse conflito essência/aparência, sendo o termo “aparência” na sua filosofia o mesmo que fenômeno, e a única maneira ao nosso alcance de conhecer e perceber o mundo. Não é para menos que o existencialismo, a filosofia analítica e a psicanálise tiveram em Nietzsche seu precursor.

Embora os filósofos se orgulhem de seus pensamentos e muitas vezes se gabem de ter encontrado respostas para as questões da existência humana, o homem continua a se envolver numa batalha sangrenta consigo mesmo (o que talvez mais tarde, na psicanálise, Freud definiria como conflito entre o Id e o Ego). Não há então para o homem resolução possível. As soluções que lhe são propostas são meras ilusões. Ao mesmo tempo, a ilusão pode ser uma solução na medida que permite celebrar a vida dentro de seus limites, em uma espécie de “ilusão consciente”.

O que afinal Nietzsche quer dizer quando fala em “ir além do bem e do mal”?

É possível que ele queira nos fornecer coragem para transcender o nosso modo de ser, ou melhor dizendo, um modo de consciência que observa o mundo sem definir as coisas como boas ou más, e sim apreendendo-as como se revelam para nós. Quem sabe podemos chamar essa condição de uma “grande lucidez”.




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