Capitã Marvel (2016 – 2017)

Com a partida de Kelly Sue DeConnick do título Capitã Marvel depois de dois runs curtos (leiam as críticas cá e cá), a Capitã Marvel ficou momentaneamente sem título próprio em razão da saga Guerras Secretas que, uma vez que se sabe, literalmente paralisou todos os títulos da Marvel Comics. Mas Carol Danvers não ficou exatamente no limbo, já que ela estrelou, uma vez que Capitã Marvel, dois tie-ins da referida saga, Força-V e Capitã Marvel e a Tropa Carol. Quando a situação normalizou-se, se é que podemos invocar assim, a publicação solo da personagem foi zerada mais uma vez para outro run mais breve ainda, de somente 10 edições, parcialmente comandado, dessa vez, por Michele Fazekas e Tara Butters, showrunners da finada série de TV Agent Carter.



Como nos outros casos, as críticas aquém são para os dois arcos dessa publicação lançada entre 2016 e 2017, o primeiro alterando o status quo da Capitã Marvel e o segundo sendo um tie-in de Guerra Civil II.

A Ascensão da Tropa Alfa
(Capitã Marvel #1 a 5)

Com somente cinco edições, Fazekas e Butters conseguem descrever uma boa história auto-contida que reúne suspense e mistério ao mesmo tempo em que reposiciona Carol Danvers uma vez que a comandante da Estação Espacial Tropa Alfa, na trajectória da Terra, a chamada “Primeira Linha de Defesa” do planeta. Se sua liderança da equipe canadense (cá composta somente por Sasquatch, Aurora e Pigmeu) é tranquila e automática, sua relação com Abigail Brand, ex-líder da E.S.P.A.D.A. e agora subordinada à Carol já começa estremecida, valendo bons momentos de ressentimento e de conflito interno, o que empresta mais sabor à história.

Girando em torno de uma nave bio-tecnológica misteriosa, com toda a sua tripulação morta e a estrela de Hala por todo lugar que é investigada pela equipe, as roteiristas não se fazem de rogadas ao enxertar os elementos mais comuns de filmes sci-fi, alguma coisa que é conscientemente abordado por Carol em balões de pensamento metalinguísticos. Temos, simples, doses maciças de Alien, o Oitavo Passageiro, mas também um pouco de Solaris e uma multitude de outras obras do gênero cujos clichês conversam muito entre si, resultando em um conjunto harmônico e jocoso, ainda que não terrivelmente original ou marcante. Mas a Carol pragmática e líder nata nasce de verdade cá, já que o texto passa muito mais segurança à personagem do que a pegada mais cômica e ligeiro da escritora anterior. Outro ponto positivo é que, assim uma vez que DeConnick, o roda bebe da mitologia clássica da personagem, inclusive suas raízes a partir do Capitão Marvel, alguma coisa sempre bem-vindo para manter a unicidade narrativa do personagem (alguma coisa que foi eliminado no recente retcon em A Vida da Capitã Marvel, infelizmente)

A Tropa Alfa em si, porém, é meramente coadjuvante, com somente Pigmeu ganhando um pouco mais de destaque do que os demais, mas mesmo assim menos do que a sempre presente Wendy Kawasaki e, simples, de Brand e seus cabelos e óculos verdes característicos. Com isso, os heróis canadenses, que já não vinham ganhando muito destaque pela Marvel, ficam ali uma vez que reservas de um time, entrando em cena para executar uma ou duas tarefas muito específicas e não muito mais do que isso. Claro que o título da publicação é Capitã Marvel somente, e não Capitã Marvel e a Tropa Alfa ou coisa do gênero, mas o roda foi batizado de A Ascensão da Tropa Alfa (tradução direta do original em inglês) e, na verdade, de subida não vemos zero, com Aurora inclusive sendo trabalhada da maneira mais genérica provável a ponto de até esquecermos de sua existência.

A arte ficou ao obrigação de Kris Anka, que entrega um trabalho simples, mas muito eficiente, aproveitando para levemente redesenhar o uniforme da heroína, trocando as luvas longas por curtas, além de retrabalhar a propriedade tira na cintura. Com exceção da eliminação do icônico elmo (ele não foi oficialmente retirado, mas não dá as caras cá), o novo design é óptimo, talvez o melhor até agora da Capitã Marvel. Da mesma forma, as sequências de ação funcionam muito muito, com uma boa distribuição espacial dos quadros e das esparsas splash pages, imprimindo um ritmo gostoso de escoltar.

O primeiro roda da novidade direção da Capitã Marvel pode não ser particularmente memorável, mas é uma leitura aprazível e que eficientemente mexe com o status quo da Capitã Marvel. Pena que houve pouco tempo para marinar essa situação antes do tie-in com Guerra Civil II.

Sozinha no Topo
(tie-in de Guerra Civil II
Capitã Marvel #6 a 10)

Carol Danvers tem um má sorte gigantesco em suas publicações solo. Desde o Volume 2 de Miss Marvel suas revistas são contaminadas pelas sagas que a Marvel Comics não para de publicar seguidamente há quase 15 anos. Não que seja provável evitar essa estratégia pela editora, mas a cereja do bolo nesse má sorte todo é que esses tie-ins acontecem logo no início de títulos da heroína, causando uma disrupção enorme antes que seu reposicionamento seja consolidado de verdade.

E é logo que Guerra Civil II vem e toma de assalto todo o segundo e último roda do terceiro título solo da Capitã Marvel, inclusive com a mudança completa do time de roteiristas. Saem Michele Fazekas e Tara Butters, que fizeram um bom trabalho na primeira secção e entram Ruth Fletcher Gage e Christos Gage que amarram a narrativa fortemente ao evento principal, mas sem realmente trazer muita coisa novidade. O resultado é basicamente Guerra Civil II vista sob outro ângulo, com intermináveis diálogos que têm uma vez que objetivo único repassar os eventos das edições principais da saga, criando algumas situações “exclusivas” cá e ali, uma vez que é a ingressão da Doutor Minerva, antiga inimiga de Danvers, uma vez que catalisadora para que ela decida fazer ainda mais uso do mutante que vê o horizonte (ou um horizonte) Ulysses Cain.

Mas esse nem é o problema principal. O pior, cá, é que Guerra Civil II, uma vez que deixei muito simples na minha sátira, é uma saga muito ruim, a pior já escrita por Brian Michael Bendis. E essa ruindade toda vai, uma vez que um vírus, contaminando o tie-in de cinco edições que só termina de solidificar de vez a posição completamente idiota da Capitã Marvel em relação ao cerne da questão da saga. O pragmatismo benigno que Fazekas e Butters construíram no roda anterior é destruído na saga e, por via de consequência, no roda sob estudo. E, simples, sem ler a saga, o roda em si fica perdido e chatíssimo de se ler, já que, uma vez que disse, é uma repetição do evento principal sob um ângulo levemente dissemelhante.

Quando a Marvel Comics decidiu para sua traço editorial inteira em Guerras Secretas, achei que a editora tinha enlouquecido, somente para, depois, permanecer muito feliz por ela ter feito isso. Estratégia perfeita para evitar a contaminação de suas publicações regulares. Essa fórmula, porém, parece ser filha única de mãe solteira, já que a velha estrutura volta novamente logo em seguida e, cá, mostra o quão é ineficiente e irritante. Se pelo menos Guerra Civil II fosse um saga passável, não estaria cá reclamando tanto, mas não é.

A única coisa que realmente ajuda passar as cinco torturantes edições é a arte de Kris Anka, Marco Faila e Thony Silas, que é o literal colírio para os olhos, mas que não salva os textos carregados que poluem as páginas e as várias revisitas ao que já foi visto antes. É uma vez que um longo déjà vu, só que de uma coisa muito ruim.

Capitã Marvel (Captain Marvel, EUA – 2016/7)
Contendo: Capitã Marvel (2016-2017) #1 a 10
Roteiro (Arco 1): Michele Fazekas, Tara Butters
Roteiro (Arco 2): Ruth Fletcher Gage, Christos Gage
Arte: Kris Anka, Felipe Smith, Marco Failla (#7), Thony Silas (#9 e 10)
Arte-final: Kris Anka, Andy Owens (#8)
Cores: Matthew Wilson
Letras: Joe Caramagna
Editoria: Sana Amanat
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março de 2016 a janeiro de 2017
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: dezembro de 2016 a abril de 2017 (Avante, Vingadores! Vol. 3 – #1 a 5 – Arco 1), setembro a novembro de 2017 e janeiro e fevereiro de 2018 (Avante, Vingadores! Vol. 3 – #10 a 12 e #14 e 15 – Arco 2)
Páginas: 22 a 24 por edição




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