Capitã Marvel – Prelúdio do Filme (2018)

Já li todos os prelúdios em quadrinhos dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel e sei que eles são quase que invariavelmente ruins, no nível de fillers safados para arrancar verba dos leitores. Alguns escapam dessa sina, uma vez que foi o caso do prelúdio de Guerra Infinita, mas o resto é a xepa da feira da Nona Arte, que parece escrito literalmente nas coxas, provavelmente com remuneração pífia e sem a menor intenção de fazer o que seria óbvio: aproveitar a riqueza do UCM para produzir um universo em quadrinhos próprio que fizesse verdadeiramente as pontes entre os filmes.

Portanto, diante dessa situação tétrica, eu já me considero feliz quando um desses prelúdios conta uma história completa, o que acontece na maioria dos casos, para ser sincero. O que me irrita sempre é quando o tal prelúdio é, na verdade, recortes de sequências de filmes anteriores com uma ou duas páginas de material tão inédito quanto inofensivo. E essa segunda situação é o caso cá do prelúdio de Capitã Marvel.

Aliás, nem sei se posso mesmo invocar esse prelúdio de prelúdio. Para encetar, sabe a tal personagem do título? Pois muito, ela não dá as caras. Nunca, nem por um quadro. Ela só é indiretamente indicada pelo pronome “ela” em um balão de fala de Nick Fury e, simples, com o pager sendo ativado na última página, exatamente uma vez que na cena pós-crédito de Guerra Infinita. Portanto, se alguém quer alguma coisa da personagem, não será cá que encontrará (melhor clicar em uma dessas outras críticas cá para isso). E, se alguém quiser uma história com primícias, meio e término (ou só dois desses três), também não encontrará cá, pois o que temos é um recorte e colagem de sequências de Era de Ultron, Guerra Civil e Guerra Infinita intercaladas com conversas entre Fury e Maria Hill sobre a premência dos dois “desaparecerem”. E olha, nem esse material inédito é muito trabalhado, pois a justificativa para isso é pífia e não convence nem leitores de primeira viagem, ainda no Jardim de Infância dos quadrinhos.



Um dos problemas para essa história tão vazia é ela ter sido lançada em novembro de 2018, ou seja, muitos meses antes do filme que em tese preludia, era em que muita coisa ainda estava sendo mantida em sigilo. Talvez uma história publicada poucas semanas antes do filme poderia trazer mais material, nem que fosse uma página só da puerícia de Carol Danvers na Terra e, sei lá, alguns quadros dela em Hala ou seja-lá-onde-for. Outro problema é que Will Corona Pilgrim quando escreve muito muito, não faz zero mais do que mediano e, cá, ele não escreve muito. Então já viu, não? Ele é veterano desses prelúdios e tenho certeza que, um dia, em um porvir ainda talvez distante, ele olhe para trás e envergonhe-se do que teve que ortografar para colocar pão na mesa.

Mas nem tudo se perde! Andrea Di Vito é o artista do prelúdio e seu trabalho é um colírio para olhos que são obrigados a ler a coisa sem perdão que é o texto de Pilgrim. Não, não é uma arte de fazer o queixo desabar, muito longe disso, mas pelo menos não parece ser alguma coisa jogado nas páginas ou feito uma vez que se a encomenda tivesse chegado duas horas antes do expediente rematar em véspera de feriado bancário. Além disso, seu trabalho não chega nem perto de encetar a salvar a obra uma vez que um todo, mas pelo menos fazem as 20 páginas passarem sem que o leitor tenha um ataque de fúria e rasgue a HQ ou, no meu caso, arremesse longe o tablet. Ainda resultará em raiva incontida, mas não é zero que um soco na parede não resolva.

Esse recorte que acha que é um prelúdio e que nem a personagem-título mostra não precisava viver. A Marvel tem um potencial tão grande para trabalhar esses quadrinhos, mas ela prefere surfar no sucesso do UCM e não fazer o menor esforço para fazer alguma coisa passável naquilo que, por décadas e décadas, foi sua especialidade única. Perde a editora e perdem os leitores. Um desperdício sem sentido.

Capitã Marvel – Prelúdio do Filme (Captain Marvel – Prelude, EUA – 2018)
Roteiro: Will Corona Pilgrim
Arte: Andrea Di Vito
Cores: Laura Villari
Letras: Travis Lanham
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 2018
Páginas: 21

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