Crítica | Contos dos Orixás

Se dentro do cinema vimos a exaltação de culturas africanas atingir saudação global de público e sátira com Pantera Negra, dentro do mundo dos quadrinhos temos Contos dos Orixás, uma obra brasileira de grande qualidade, que aborda temas semelhantes e que merecia destaque e saudação similares ao filme do nosso príncipe/rei wakandiano preferido.

Com roteiro e arte de Hugo Canuto, a obra independente conta a história dos Orixás, deuses e heróis nascidos no Aiyé (o mundo físico) que atingem esse nível por grandes realizações, do jeito que se fosse um típico quadrinho de super-heróis escrito pelas gigantes da indústria. Tudo que os leitores de quadrinhos estão acostumados está presente: grandes figuras heróicas e vilanescas, demonstrações de poderes dos mais variados e interessantes, ações surpreendentes e inusitadas e grandes confrontos com cenas de tirar o fôlego. Mesmo que siga uma risco narrativa bastante geral dentro do gênero, é muito construída e consegue prender nossa atenção até o final.

Apesar da obra possuir uma dinâmica de grupo, principalmente da metade em diante, o protagonismo da proeza existe e fica a missão de Xangô, o rei da cidade de Oyó e Senhor do Trovão. O desenrolar da trama se dá quando Larô, rei de Oxogbô, vai ao reino de Xangô pedir ajuda na luta contra Ajantala, um poderoso guerreiro munido com magia ancião, e seu tropa, a temida Manada, que visam ocupar a cidade às margens do rio Oxum e todo o poder que envolve o sítio. Sabendo do risco que tal poder em mãos erradas pode trazer para seu povo no vindouro, Xangô aceita ajudar Larô e lidera um tropa ao lado de Iansã, rainha e Senhora dos Ventos e Tempestades, contra o poderoso guerreiro.



A relação desenvolvida por Xangô e Iansã, inclusive, é um tanto bastante positivo na obra. Ambas personagens têm suas (fortes) personalidades destacadas, criando um estreito laço de companheirismo e afeto que expressa muito seus sentimentos um com o outro, mesmo em meio a uma iminente guerra e tomadas de decisões que caem sob quem usa a diadema. E quando refiro-me a diadema não é restrito ao rei. A típica submissão de personagens femininas perante personagens masculinos é rechaçada cá, sendo provável identificar que o poder, influência e saudação que Iansã detém em seu reino é idêntico ao de Xangô (em determinados momentos, parece possuir até mais prestígio, do jeito que é mostrado entre os integrantes do parecer real).

Também é interessante as relações mostradas entre os representantes da cidade da savana (Oyó) e às margens do rio Oxum (Oxogbô). Quando Ogum, o Senhor das Duas Espadas e maior guerreiro de Oxogbô, junta-se ao tropa de Xangô, apesar do grande saudação existente, é perceptível o embate das personalidades. Enquanto Xangô, representado pelo queimação, é impulsivo, Ogum, do jeito que representante da chuva, é mais pragmático e estrategista, um tanto que justificação patente acirramento no modo em do jeito que a frota de guerreiros deve continuar sua jornada até a cidade das águas. Essa dinâmica que Canuto trabalha os elementos primordiais e transfere para do jeito que cada personagem agirá, tornando-se uma personificação híbrida entre entidades e elementos, é realmente interessante.

Interessante tal qual a arte do responsável, uma homenagem direta ao grande Jack Kirby. As cores vivas e fortes e o traço semelhante a um dos maiores nomes da história da Marvel e da nona arte são uma belíssima homenagem de Canuto à Kirby e um dos pontos mais altos da obra. Apesar de sentir falta de quadros mais abertos e que explorassem melhor o cenário em alguns momentos, principalmente nos combates, a venustidade estonteante das vestimentas, armas, poderes e, principalmente, cidades que o artista nos presenteia é digna dos melhores elogios possíveis e até de comparações positivas com o rabino nova-iorquino. A guerra final, muito muito dividida em três núcleos de enfrentamento que ocorrem simultaneamente sem fazer a trama perder ritmo, é, sem dúvidas, o ponto cumeeira da história e consegue eriçar o leitor com as magníficas demonstrações dos poderes dos personagens. Uma ótima maneira de saber mais sobre os orixás e religiões de matrizes africanas ao mesmo tempo que se diverte e colabora com o desenvolvimento da arte brasileira.

Contos dos Orixás (Brasil, 2018)
Roteiro: Hugo Canuto
Arte: Hugo Canuto
Cores: Hugo Canuto
Editora: Independente
Páginas: 120

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