Crítica | Hellboy – Vol. 10: O Vigarista e Outras Histórias

Deixando os leitores pendurados em um cliffhanger gigantesco ao final de Caçada Selvagem, Mike Mignola não teve pressa em voltar à traço narrativa principal de Hellboy. No lugar disso, ele continuou escrevendo minisséries e contos por alguns anos que seriam compilados nos dois volumes seguintes. O Vigarista e Outras Histórias traz quatro delas, com a história do título tendo levado o cobiçado Prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos.

E, de óbvio, O Vigarista merecia o prêmio, sendo uma das melhores histórias auto-contidas de Hellboy já escritas. Nela, o protagonista envolve-se com um caso repleto de bruxas, possessão demoníaca e pacto com o Tinhoso (o vigarista do título) na região dos Apalaches, nos Estados Unidos, reunindo praticamente tudo de melhor que Mignola já escrevera em uma narrativa sólida que coloca Hellboy muito mais da maneira que um observador do que alguém com interferência jacente e direta no desenvolvimento narrativo.

Dessa maneira, Mignola consegue colocar o leitor na posição de Hellboy lidando com os mais diversos eventos sobrenaturais daquela maneira blasé dele ao mesmo tempo que desenvolve bons personagens coadjuvantes (ou principais, dependendo de seu ponto de vista) inéditos, principalmente Tom Ferrell, um indivíduo com um terrível sigilo que volta para lar depois de anos longe. Fazendo par com Mignola, Richard Corben, que desenhara Makoma, história compilada em A Feiticeira Troll e Outras Histórias, volta para a arte e entrega um trabalho irretocável que encapsula não só o ar tenebroso que a história exige, da maneira que retrata muito muito os “caipiras americanos”, com rostos expressivos, mas caricaturais e uma atenção a detalhes muito bem-vinda, além de uma aterrorizante versão do Diabo.



Em seguida a O Vigarista, vem Aqueles que Desbravam o Oceano, história encomendada para servir de material de marketing para um jogo da Konami de Hellboy. Lidando com a redescoberta da caveira do famoso pirata Barba Negra, dos quais esqueleto sem cabeça aterroriza uma região pantanosa, a narrativa é surpreendentemente interessante, com uma belíssima arte de Jason Shawn Alexander que não só cria uma atmosfera digna do temível pirata, da maneira que também reimagina tanto Hellboy quanto Abe Sapien de maneira mais realista. O maior defeito da história é ela ser curta, daquele tipo de piscou acabou e que deixa um sabor de quero mais, o que é sempre bom.

A Capela de Moloch, o terceiro raconto do encadernado, é um one-shot que marca a volta de Mignola para a arte de Hellboy depois de três anos só escrevendo para terceiros desenharem. Passada em Portugal, onde Hellboy visitante um artista que passara a idolatrar Moloch, entidade demoníaca do leste europeu, a historieta tem praticamente um só cenário, o interno de uma igreja abandonada iluminada unicamente pela luz de velas. Usando pinturas de Goya da maneira que inspiração – tanto para Mignola quanto para o artista na história -, o leitor sente o peso da pegada gótica clássica do responsável, com monstros arrepiantes e ação muito rápida, ainda que o roteiro deixe a desejar em termos de desenvolvimento.

Fechando o compilado, há The Mole (não detectei publicação no Brasil, pelo que mantive o título em inglês), brevíssima história distribuída gratuitamente na edição de 2008 do Free Comic Book Day. Passada duas semanas antes do início de O Clamor das Trevas, vemos um pouco mais de Hellboy morando na lar de e convivendo com Harry Middleton, que falecera em 1984. Jogando cartas com os fantasmas, eles detectam uma verruga na mão de Hellboy que logo se transforma na versão completamente demoníaca do Vermelhão em uma viagem lisérgica transformada em alguma coisa muito interessante pela magnífica arte de Duncan Fegredo, responsável pelos dois volumes anteriores.

Apesar de fugir completamente da história principal de Hellboy logo quando ela estava chegando ao seu orgasmo, O Vigarista e Outras Histórias oferece um material da mais subida categoria sobre o personagem. Às vezes, os desvios no meio do caminho podem ser até mais interessantes do que a traço reta entre dois pontos. É certamente o caso cá.

Hellboy – Vol. 10: O Vigarista e Outras Histórias (Hellboy – Vol. 10: The Crooked Man and Other Stories, EUA – 2010)
Contendo: O Vigarista, Aqueles que Desbravam o Oceano, A Capela de Moloch, The Mole
Roteiro: Mike Mignola (histórias 1 a 4), Joshua Dysart (história 2)
Arte: Richard Corben (história 1), Jason Shawn Alexander (histórias 2), Mike Mignola (historia 3), Duncan Fegredo (história 4)
Cores: Dave Stewart
Letras: Clem Robbins
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Datas originais de publicação:
– The Crooked Man and Others (encadernado original americano): junho de 2010
– (1) O Vigarista, publicada em julho a setembro de 2008, em Hellboy: The Crooked Man #1 a 3;
– (2) Aqueles que Desbravam o Oceano, publicada em agosto de 2007, em Hellboy: They That Go Down to the Sea in Ships;
– (3) A Capela de Moloch, publicada em outubro de 2008, em Hellboy: In The Chapel of Moloch;
– (4) The Mole, publicada em abril de 2008, em Hellboy Free Comic Book Day
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: janeiro de 2019 (sem The Mole)
Páginas: 161 (encadernado impresso americano)

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