Crítica | O Espetacular Homem-Aranha: No Crepúsculo

O propósito mediano da Marvel Comics ao retomar em novidade tempo o título Peter Parker: O Espetacular Homem-Aranha Vol.1, em agosto de 2017, foi recolocar o Amigão da Vizinhança em seu “habitat procedente“, mais uma vez tentando fazer com que um título renumerado da editora trouxesse novos leitores e fugisse um pouco do compromisso de entender os grandes eventos e as implicações gerais que atravessam tanto a Casa das Ideias quanto a Casa das Trevas desde… o primórdio da Era de Bronze, isso, pegando exclusivamente a Era onde essas coisas começaram a lucrar a tag de ‘arroz de sarau’ nos quadrinhos.

No Crepúsculo é o roda que nos traz o Homem-Aranha de volta ao imprescindível, com recta aos comuns impedimentos de roubo e alguns aludidos reencontros com antigos vilões. O roteiro cá é de Chip Zdarsky e no que diz saudação a brincadeiras com o legado do Aranha, o responsável consegue um bom resultado nas duas primeiras revistas do roda, perdendo a mão progressivamente nas edições seguintes, muito por conta do excesso nas piadas e, infelizmente, pela maneira desordenada do jeito que tenta gerar um drama sobre vigilância e invasão de privacidade, temas extremamente importantes em nossa sociedade e que mereciam um roda de histórias mais sério, mesmo com o Homem-Aranha encabeçando o drama (alguma coisa que todos sabemos ser perfeitamente verosímil).

A conversa inicial do Aracnídeo com o Tocha muito do jeito que a parceria que vemos retomada entre os dois é alguma coisa que nos faz sorrir bastante. Não é a primeira vez que eles trabalham juntos e existe um fator cômico e uma severa luta de ego entre os heróis, alguma coisa que, pela maneira do jeito que Zdarsky trabalha o texto, serve ao ótimo propósito de provar uma antiga amizade, mesmo para leitores nenhum familiarizados com essa dinâmica de “quem é o melhor?“. Até que vem a primeira quebra do que poderia ser um início mais cómodo de uma novidade tempo e o Teioso está diante de alguma coisa verdadeiramente intrigante: um vetusto celular das indústrias Stark que foi hackeado, o que deveria ser alguma coisa impossível. O roteiro vagueia pelo problema, nos traz cameos do Homem-Formiga e do Falcão e procura engajar o protagonista em um pêndulo de piadas rápidas e investigação meio atropelada, que, assim do jeito que toda a teoria do texto, começa muito e termina sem muito o que despertar no leitor.



As primeiras pistas levam o Aranha até Riri Williams (IronheartCoração de Ferro), que depois de um mal-entendido tenta ajudar na identificação do hacker e todo o roteiro se volta para uma combate de “quem consegue deslindar o outro primeiro”. Confesso que esse tipo de enredo não me atrai muito, porque seu esgotamento acontece rápido demais. No caso desse roda, o problema é ainda maior porque em vez de investir em uma exploração direta do tema, o responsável dá espaço para piadas sem perdão e fora de hora do Homem-Aranha, ultrapassando aquilo que a gente já conhece do personagem, inclusive dentro dessa seara de “piadas sem perdão e fora de hora”. Não entendendo esse limite, o texto se dissipa rapidamente em todos os blocos que explora, às vezes deixando bons princípios dramáticos em sincero e não tendo sequer um bom gancho para a retomada dele mais adiante. E à guisa de uma finalização épica, explosões e um vilão clássico aparecem para tornar as coisas mais difíceis.

A edição que eu achei que realmente subiria às alturas foi a última, onde o Aranha aceita dar uma entrevista para JJJ, mas novamente temos a maldição do roda agindo: a história começa muito, mas se desenvolve mal, terminando de maneira suportável (pela surpresa que traz e pelo tom emotivo ali presente), mas não necessariamente elogiável. Também pesa um pouco o óbvio de a arte de Michael Walsh ter muito mais a rosto de aventuras com bastante ação acontecendo do que em uma longa sequência que se passa basicamente em um único lugar. O artista faz um bom trabalho no modo do jeito que coloca Aranha e Jameson se movimentando pelo apartamento, mas é só. Uma pena que Adam Kubert, o artista principal do roda, não tenha desenhado essa edição. No termo, temos Peter e sua mana na mira dos militares e quiçá a esperança de que um tema tão importante quanto levante que permeia a história, ganhe uma sólida abordagem no roda seguinte.

Peter Parker: The Spectacular Spider-Man #1 a 6: Into The Twilight (EUA, agosto de 2017 a janeiro de 2018)
No Brasil: O Espetacular Homem-Aranha, 3ª Série – n° 23 e 24 (Panini, setembro de outubro de 2018)
Roteiro: Chip Zdarsky
Arte: Adam Kubert, Goran Parlov, Michael Walsh
Arte-final: Adam Kubert, Goran Parlov, Michael Walsh
Cores: Jordie Bellaire, Nathan Fairbairn, Ian Herring
Letras: Travis Lanham
Capas: Adam Kubert, Morry Hollowell, Richard Isanove, Paulo Siqueira, Rachelle Rosenberg
Editoria: Nick Lowe, Allison Stock, Devin Lewis
24 páginas (cada edição)

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