Crítica | Valérian e Laureline: O País Sem Estrela

Sistema Ukbar (esse nome me lembra um manifesto narrativa…), século 28. Valérian e Laureline recebem a missão de visitar esta região externa da Galáxia, o limite do Universo explorado. Nesse momento da História futura da humanidade, Galaxity conseguiu levar colonos para os quatro planetas desse sistema, a saber, Ukbar I (um mundo aquático onde os colonos construíram plataformas flutuantes tanto quanto plataformas de petróleo), Ukbar II (um mundo pastoril), Ukbar III (um mundo industrial) e Ukbar IV (de semblante maninho, pleno de estufas, centrais de notícia e exploração espacial). Este será o último contato de Galaxity com esses planetas em muito muito tempo. E Valérian tem a missão de discursar e dar o adeus momentâneo aos colonos, até que um novo contato, no porvir, seja realizado.

Publicada na revista Pilote entre 1970 e 71, esta história traz uma boa quantidade de elementos reconhecíveis da ficção científica clássica (tanto quanto a noção de planetas ocos, presente na literatura de Verne e Burroughs) e uma temática de construção social que mostra a sagacidade do roteirista Pierre Christin, trazendo à tona o concepção de guerra dos sexos aplicado a um planeta inteiro, onde duas grandes cidades, cada uma dominada por um gênero, guerreiam o tempo inteiro, sem nem saber por quê. O dilema de uma guerra sem término dos quais motivo se perdeu no tempo também é alguma coisa que leitores já muito educados em ficção científica entendem e aproveitam, à medida que os agentes espaço-temporais exploram Zahir, o planeta vazio que tem muito mais problemas pela frente do que a preocupação de uma guerra sem sentido.

A fantástica arte de Jean-Claude Mézières incorpora o melhor de obras sci-fi contemporâneas (Duna é um dos exemplos) e explode de originalidade em todo o concepção que cria para Zahir e suas duas únicas — e gigantescas — cidades: Malka, a cidade das mulheres governada por Klopka e Valsennar, a cidade dos homens governada por Alzafar. Até Lemm, o povo nômade, recebe um cenário muito muito pensado, com boas descrições e desenhos do “lado lunar” onde eles vagam, além da extração de flogums, pedaço explosivo das rachaduras vulcânicas que essas comunidades vendem tanto para o patriarcado quando para o matriarcado seguirem com a guerra. E ninguém se importa. Ninguém faz perguntas.



O concepção ideológico que marca a ramificação social no planeta sentenciado acaba, de certa forma, sendo também um motivo interessante para a meio da história. Pela primeira vez, desde Os Maus Sonhos, temos uma entrega e crédito totais de Valérian em relação à sua parceira, inclusive no final, com o jovem bêbado confiando o controle da nave a Laureline. Embora a relação entre os dois sempre tenha sido pensada em alguma coisa próximo a um estabilidade, foi só em O Império dos Mil Planetas que o roteiro começou a fazer questão de dar relevância ao papel de Laureline na saga, reforçando isso cá em O País Sem Estrela, numa trama bastante propícia para esse tipo de discussão, mesmo que o cerne político e o pensamento mais duro a saudação desse objecto esteja por conta do leitor. O roteiro só faz mesmo colocar o tema de maneira clara (para que ninguém possa expressar que “é só metáfora“), mas não levanta bandeira alguma.

Me surpreendeu bastante que o final tenha sido tão pleno de resoluções rápidas, explicações um tanto jogadas e certa compasso boba e romântica entre os gêneros do planeta Zahir. Por mais compreensível que seja o comportamento da população depois de finda a ameaço de séculos, o série da sociedade é quase simplista, enquanto todo o restante da história teve uma construção muito muito pensada. O passo em falso do roteiro, porém, é mais uma questão isolada e não nega ou anula as boas conquistas do início e do desenvolvimento do volume, fazendo de O País Sem Estrela uma façanha reflexiva, mostrando uma sociedade louvando a segregação e querendo matar seus “inimigos diferentes” enquanto o mundo em que viviam entrava em colapso. Qualquer semelhança com um manifesto planeta do Sistema Solar em pleno século XXI não é mera coincidência.

Valérian e Laureline: O País Sem Estrela (Valérian et Laureline: Le Pays sans étoile) — França, outubro de 1970 a março de 1971
No Brasil: Valérian Integral N°2 (Edição Especial – Sesi-SP Editora, 2017)
Publicação original: Revista Pilote #570 a 592
Editora original (encadernado): Dargaud
Roteiro: Pierre Christin
Arte: Jean-Claude Mézières
Cores: Évelyne Tranlé
45 páginas

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