Killmonger: Por Qualquer Meio

Killmonger é um daqueles vilões que se baseiam em ideias tão fortemente relacionáveis, sob um ponto de vista político e social, que é difícil não gostar ou concordar com ele. Claro que para algumas bússolas morais os meios pelos quais ele procura o seu objetivo maior (misto de vingança e justiça), que é trazer real liberdade para o povo preto, não é válido em nossa sociedade. Mas ainda assim é verosímil entender as ideias do personagem uma vez que solidamente ancoradas na verdade e que, se em partes de seu “grande projecto” o ego, o orgulho, o desrespeito ao seu próprio povo e tradições ou a facciosismo pela vingança tome conta de suas atitudes, há um ponto de chegada que realmente nos faz pensar na discussão sobre o que ao menos em certas linhas teóricas, se entende uma vez que necessário para se realizar uma verdadeira revolução.

Quando Killmonger apareceu pela primeira vez nos quadrinhos, na Jungle Action #6, já não havia incerteza alguma de seu ódio ao Pantera Negra e aos modos “frágeis e permissivos” com que ele governada o país. Estava tudo lá: a história de vida trágica (sendo sequestrado ainda moçoilo pelo Garra Sônica e tendo que viver uma vez que servo enquanto crescia), a escalada nos Estados Unidos, os estudos, o progressivo aprimoramento de habilidades de guerra e refinamento de uma visão de mundo que pretendia impor a Wakanda. Um modo, segundo ele, melhor para todos e justo contra a pilhagem e mortandade causada pelos colonizadores. Neste roda Por Qualquer Meio, publicado pela Marvel entre dezembro de 2018 e março de 2019 e escrito por Bryan Edward Hill, conhecemos o que aconteceu com Killmonger entre o momento que ele saiu de sua terreno natal até o momento de seus retorno. [E para leitores que não estão habituados, não custa nada deixar aqui a seguinte nota: a versão dos quadrinhos para personagens e sagas não é necessariamente igual — estou sendo bonzinho — àquela que vemos nos filmes].



O único ponto que acaba dando uma pequena cambaleada nessa façanha, pelo menos nas duas primeiras revistas do roda, é o trabalho de passagem do tempo, que até conta com uma boa apresentação de eventos mas, em qualquer ponto, parece que há um salto físico e mental para o personagem (nessa caso específico, a grande mudança acontece na última edição), muitas vezes dando a sentimento de que falta alguma coisa ali no meio. Não é exatamente alguma coisa grave a ponto de impedir o entendimento ou ser considerando um furo de roteiro, mas algumas indicações maiores de tempo nos ajudariam a ver essa passagem de maneira mais organizada e apreciável para o personagem. Fora isso, não consigo encontrar mais zero que não tenha gostado cá. Dos contatos espirituais de N’Jadaka com a divindade Bast ou com a traidora e vingativa divindade K’Liluna até os embates físicos, parcerias e batalhas ao longo de sua jornada pré-Wakanda, tudo parece fazer de Killmonger um varão com razão. Por isso que levantei a discussão para as questões éticas e morais que envolvem as ideias do personagem. Quando descobrimos o que aconteceu até que elas estivessem maduras temos dificuldade de não dar razão a ele, nem que seja parcialmente.

A arte e as cores da revista ficaram a incumbência de Juan Ferreyra (com Eduardo Ferreyra na finalização a partir da segunda edição) e o trabalho do prateado é de seu aplaudir de pé. Há uma dualidade belíssima que ele leva em conta toda vez que mostra o mundo místico mentalizado pelo protagonista, tendo também zelo ao usar uma paleta de cores dissemelhante do restante de toda a edição, criando um verdadeiro contraste. Há também que se elogiar a diagramação das páginas cá, principalmente nos momentos de luta. A maior fragmentação não é feita unicamente para dar uma sentimento genérica de muita coisa acontecendo de maneira muito rápida. O artista utiliza isso para gerar armadilhas e possibilidades de ação dentro desses quadros, também utilizando as cores nesse processo. Um trabalho realmente excelso.

Por Qualquer Meio é o preenchimento de um buraco na vida de Killmonger dentro do Universo Marvel, certamente impulsionado pelo enorme sucesso do vilão, vivido por Michael B. Jordan no filme de 2018. Trabalhando questões raciais, mostrando relacionamentos tempestuosos e eventos que vão mudando bastante a visão de alguém sobre o mundo e sobre as outras pessoas, a saga mostra que ainda é verosímil tirar muita coisa dos bons personagens de Wakanda. E que continue assim!

Killmonger Vol.1 #1 a 5: By Any Means (EUA, dezembro de 2018 a março de 2019)
Roteiro: Bryan Edward Hill
Arte: Juan Ferreyra
Arte-final: Juan Ferreyra
Cores: Juan Ferreyra, Eduardo Ferreyra
Letras: Joe Sabino
Capas: Juan Ferreyra
Editoria: Wil Moss, Sarah Brunstad, Tom Brevoort
136 páginas

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