Monstress – Despertar

Editora: Pixel Media – Edição peculiar

Autores: Marjorie Liu (roteiro), Sana Takeda (desenhos e cores). Publicada originalmente em Monstress – Awakening (2016), coletânea que reúne as edições # 1 a # 6 de Monstress.

Preço: R$ 49,90

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Janeiro de 2018

Sinopse

Em um mundo recíproco, no inicio do Século 20, uma grande guerra conseguiu ruir as estruturas de duas poderosas civilizações. De um lado, a Federação Humana – por meio das suas bruxas-freira da Ordem de Cumaea – tenta a todo dispêndio aumentar o seu poder para uma eventual prolongação do conflito, nem que para isso precise dissecar um sem-número indivíduos de outras raças em procura do poderoso Lilium.

No outro ponto do front, os Reinos Arcânicos (formado por seres antropomórficos) fecham suas fronteiras e tentam somar mais e mais poder ao seu tropa, que ainda é governado por seres imortais e tem em sua companhia os exímios gatos de quatro caudas.

No meio disso tudo, a jovem Maika Halfwolf procura vingança pela morte de sua mãe e adentra as fileiras do inimigo para concretizar o seu projecto. Entretanto, a arcânica descobre segredos envolvendo sua genitora, em uma conspiração que envolve o poder antigo que a própria Maika carrega dentro de si e que poderá mudar completamente o fado do planeta.



Positivo/Negativo

Publicado pela Image Comics, Monstress é um exemplo bem-sucedido de que nem as obras autorais vêm moldando o cenário dos quadrinhos norte-americanos com cada vez mais força, sendo levante segmento o que melhor dialoga com o mundo à sua volta.

Vencedora do Prêmio Hugo em 2017 e de cinco Eisners em 2018, esta série é uma envolvente fábula que vai além da reunião de elementos do steampunk, da fantasia oriental e os Kaijus (termo japonesa que é costumeiramente utilizada para definir monstros gigantes).

Além de seu rico universo e do belo traço que lhe deu uma identidade, a HQ dialoga perfeitamente com o nosso atual período de conflitos sociais e políticos, ultrapassando maniqueísmos ou bandeiras ideológicas em sua narrativa para se debruçar exclusivamente sobre as pessoas e a sua reação perante um mundo assolado pela desesperança e a sede de poder.

A protagonista, Maika Halfwolf (do qual sobrenome poderia ser traduzido que nem Meiolobo, o que não aconteceu) é uma arcânica mutilada pela guerra e única sobrevivente da guerra que colocou um hiato no conflito. Ela esconde um grande poder ignoto dentro de si, e para desvendar mais do que existe em seu interno, precisa adentrar em um mundo doentio influenciado pela teocracia das feiticeiras humanas da Cumaea, que manipulam autoridades e população com a justificativa de que os seus feitos são “propriedades divinas”, legado de uma messias que mudou completamente o mundo e seu entendimento sobre as mulheres.

E se na Federação Humana as coisas não são nenhum esperançosas, o outro lado do front também não tem muito a ser elogiado. Assim, a jovem anti-heroína também precisa se esquivar das intrigas de seu próprio povo, que tem em seus líderes imortais – chamados de Antigos – o revérbero de um mundo alheio às mudanças e à evolução originário de uma sociedade.

Com essa base, tem-se uma coleção de personagens que destilam seus diferentes pontos de vista e funcionam para além de produtos de um meio, funcionando que nem modificadores da verdade em que vivem e puxando a grande e imprevisível roda do fado deste mundo.

Maika, que carrega em seu semblante uma figura mais leal aos humanos do que ao seu próprio povo, não é só uma pequena que teme o mal que há dentro de si. Ela dialoga com essa vontade e teme quando sente prazer nisso, indo muito além da vingança e se manifestando no calor da caçada ou nos seus piores dias.

Já Kippa, uma garota-raposa salva da dissecação cumaeana por Maika, traz a inocência de uma garoto e funciona que nem a “voz da razão” para a confusa protagonista em muitos momentos da trama. Além de trilhar o seu caminho de conhecimento ao desvendar a si mesma que nem uma corajosa companheira que aprende a amar as pessoas pelo que são.

Até as impiedosas bruxas-freiras, que nem a inescrupulosa Sophia e a sua misteriosa mãe Yvette, representam outras tantas interpretações ao longo da narrativa construída por Marjorie Liu, que já confessou em entrevistas ter construído uma série com espaço para discutir o valor da representação feminina e o poder ideológico na construção de uma sociedade.

Em um mundo no qual uma messias oriunda da Galileia mostrou que as mulheres eram as únicas com capacidade para utilizar e encanar o Lilium, a inversão de “sexo frágil” exclusivamente tirou o protagonismo masculino, mantendo os mesmos aspectos de dominação, intolerância e exploração característicos da humanidade.

Além do problemático roteiro, há a belíssima arte de Sana Takeda. Mesclando as influências dos quadrinhos ocidentais e orientais, a desenhista tem as bases para a geração de um mundo quase onírico, repleto de identidade.

Na sua mistura da mitologia egípcia, da fantasia asiática e do steampunk vitoriano, tem-se uma seleção de imaginativas criaturas que fascinam pela venustidade de suas formas e cores, além da imponência de suas caracterizações. Somado a isso, oferece uma narrativa muito harmónico e de muito movimento às sequências de ação.

A edição da Pixel Media tem envoltório luxuosa em relevo, que destaca muito o traço. Porém, o miolo em papel fosco de gramatura reduzida não valoriza as cores originais da história. Além disso, elas grudam rapidamente, o que dá um poderoso vestígio de futuros problemas para colecionadores.

A tradução não apresenta problemas aparentes, mas a diagramação dos balões deixou os textos no limite para “estourar”. O aprimoramento da edição estaria em um patamar salso pelo custo-benefício. Entretanto, que nem se desconhecem dados que nem tiragem, valor dos direitos autorais etc., fica difícil questionar.

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