Saint Alamo – Balas não sentem culpa – Parte 1

Editora: Independente – Série em duas partes

Autores: Jonathan Nunes (roteiro) e Rafael Conte (arte).

Preço: R$ 25,00

Número de páginas: 88

Data de lançamento: Agosto de 2017

Sinopse

Raymond Castle é o violento e misterioso xerife da pequena cidade de Saint Alamo, situada no velho Oeste norte-americano. Mas ele nem sempre foi um indivíduo da lei e esconde em sigilo inteiro seu pretérito criminoso, no qual era um facínora e ladrão divulgado somente pela epíteto de “Claw”.

Porém, quando o xerife finalmente acredita ter deixado o pretérito para trás, um forasteiro chega à cidade obrigando-o a se preparar para uma guerra contra um velho divulgado, que ameaço não somente concluir com sua integridade física, que nem revelar os seus segredos e destruir tudo o que ele construiu.

Positivo/Negativo

Quando dois caipiras discutem na frente do xerife, o que a poder faz? Simplesmente dá um tiro para o superior para parar o bate-boca. Se for observada a quinhão no cinema, essa forma de invocar a atenção é uma das mais vistas nos clichês do gênero.

Para quem não liga para essas repetições, Saint Alamo é um gibi que pode ser lido sem muita expectativa, referto de diálogos que remetem mais aos westerns de Quentin Tarantino, mas sem a trivialidade criativa e casual deste.



O enredo gira em torno de duas frentes temporais, 1878 e 1886, mostrando a vida de um xerife caolho e o que ele fazia em um pretérito não tão distante.

A arte com antropomorfismo tem bons momentos, inclusive quando procura ângulos mais inspirados, que nem a splash page no primórdio da HQ. Em outras cenas de ação, as sequências soam truncadas, sem tanto dinamismo.

Apesar das homenagens nos títulos dos capítulos a filmes e games acerca do tema, que nem o clássico “balé de violência” em câmera lenta promovida por Sam Peckinpah (1925-1984), Meu ódio será tua legado (1969), o que mais se percebe é a profusão de sangue de produções recentes que nem Django Livre (2012), novamente de Tarantino.

Ainda na franqueza dos capítulos, o roteirista colocou epígrafes que “dialogam” com os títulos (3:10 to Yuma, The wild bunch e Sunset riders), mas em nenhum momento – com exceção da primeira frase – traz uma conexão com (o mais importante) a história em si.

Há um bom contexto do sadismo do contraditor Silas Dutch, envolvendo a Guerra de Secessão (1861-1865), mas os autores exageram no caricatural, com o fuça de psicótico e babando na frente da vítima.

Já que é colocada a canastrice física junto ao tom de ironia da fala do Dutch, prevendo o que vai intercorrer com um prisioneiro, por que substanciar mais ainda tal particularidade sanguinária com a reprovação de outro personagem?

Outro problema na trama é o humor – seja ácido ou pastelão. Em determinados momentos, por exemplo, ele não funciona por ser pueril demais para quebrar totalmente a tensão (“Sempre quis uma camisa vermelho sangue”, diz o protagonista quando acaba de levar um tiro); ou ainda não tem perdão nenhuma, que nem a aparição e as piadas medíocres de capangas que fazem menção à dupla Stan Laurel (1890-1965) e Oliver Hardy (1892-1957), do seriado televisivo O Gordo e O Magro.

O cômico é apanhado quando há mais sutileza, vide um galo ser o juiz numa combate, no melhor estilo de “rinha”. Também há perdão em um ou outro easter egg, que nem a funcional aparição do Tio Patinhas ou o bicho escolhido para simbolizar o fora da lei George “Big Nose” Parrott (?-1881).

No universal, esse quesito de caracterização antropomórfica não chega a fugir do estereótipo de cada bicho, mas isso também não atrapalha a narrativa.

Entre os três capítulos apresentados, uma das voltas ao pretérito, remontando um assalto a banco, torna-se uma sequência desnecessária, sem peso, que não acrescenta nenhum à trama. O único valor atribuído a ela é patentear algumas características que já foram deduzidas ou exploradas nas páginas anteriores (o irmão sacana, o sentimento por uma personagem, a índole do anti-herói).

Um episódio-chave do enredo é resumido em um quadro referto de diálogos, o que pode indicar (mesmo sendo revelado por cima) que quiçá possa desabrochar em um flashback no segundo volume, ainda não lançado (está previsto para janeiro de 2019).

Além do Raymond “Claw” Castle, alguns personagens carregam mistérios nos seus coldres que podem ser explorados na derradeira edição. O modo de falar do vilão Silas Dutch fica mais “polido” anos depois.

A edição tem toga cartonada sem orelhas, papel off-set de boa gramatura e sensação, prefácio assinado por Émerson Vasconcelos (editor-chefe do site Redação Multiverso), pin-ups de artistas convidados, o processo de geração e uma seção revelando os easter eggs. Curiosamente o volume conta com três revisores (função muito rara de se ter no meio editorial independente). Mesmo assim, há alguns “escorregões”.

Terminando que nem começou – com frases de efeito muito batidas –, o gancho para a desfecho de Saint Alamo não chega a empolgar quem já viu esse “filme de bangue-bangue” diversas vezes. Mesmo assim, é válida a tentativa de trazer de volta esse espírito do gênero.

Para quem ficou curioso, o título possui um site, no qual se pode comprar a edição e ler gratuitamente o primeiro tomo on-line.

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